Jesus Crucified

Jesus Crucified
Jesus Christ have mercy on us

Holy Tridentine Mass - Santa Missa Tridentina.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Visão do demónio

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
13. Visão do demónio
Bem diferente é um facto que agora me está a lembrar. Andávamos,
um dia, num sítio chamado a Pedreira e, enquanto as ovelhas
pastavam, saltávamos de penedo em penedo, fazendo ecoar
a voz no fundo desses grandes barrancos. O Francisco, como era
seu costume, retirou-se lá para a concavidade dum penedo. Passado
um bom bocado, ouvimo-lo gritar e chamar por nós e por
Nossa Senhora. Aflitas pelo que Ihe teria acontecido, começamos
a procurá-lo, chamando por ele.
– Onde estás?
– Aqui! Aqui!

Mas ainda nos levou tempo a encontrá-lo. Por fim, lá demos
com ele, a tremer de medo, ainda de joelhos, que, aflito, nem arte
tinha para se pôr de pé.
– Que tens? Que foi?
Com a voz meia sufocada pelo susto, lá disse:
– Era um daqueles bichos grandes, que estavam no inferno,
que estava aqui a deitar lume.

Não vi nada, nem a Jacinta, por isso ri-me e disse-lhe:
– Tu não queres nunca pensar no inferno, para não teres medo,
e agora foste o primeiro a tê-lo!?

Ele, quando a Jacinta se mostrava mais impressionada com a
lembrança do inferno, costumava dizer-lhe:
– Não penses tanto no inferno! Pensa antes em Nosso Senhor
e Nossa Senhora. Eu não penso nele, para não ter medo.

 
E não mostrava ser nada medroso. Ia de noite, sozinho, a qualquer
sítio escuro, sem mostrar dificuldade. Brincava com os lagartos
e cobras que encontrava; fazia-as enrolar-se à volta dum pau;
deitava-lhes, nas covas das pedras, leite das ovelhas, para que o
bebessem. Metia-se nas covas, à procura das louras das raposas,
dos coelhos e ginetes, etc.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA- Amor ao recolhimento e à oração

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA

12. Amor ao recolhimento e à oração
O Francisco era de poucas palavras; e para fazer a sua oração e oferecer os seus sacrifícios, gostava de se ocultar até da Jacinta e de mim. Não poucas vezes o íamos surpreender, de trás duma parede ou dum silvado, para onde, dissimuladamente, se tinha escapado, de joelhos, a rezar ou a pensar, como ele dizia, em Nosso Senhor triste por causa de tantos pecados. Se lhe perguntava:
– Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a
Jacinta?

– Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e
consolar a Nosso Senhor que está tão triste.

Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, tu, de que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor
ou converter os pecadores, para que não (vão) fossem mais
almas para o inferno?

– Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando
disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor que já está
muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter os pecadores, para que não O ofendessem mais.

Quando ia à escola, por vezes, ao chegar a Fátima, dizia-me:
– Olha: tu vai à escola. Eu fico aqui na igreja, junto de Jesus
escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou
para o Céu. Quando voltares, vem por cá chamar-me.


O Santíssimo estava, então, à entrada da Igreja, do lado esquerdo.
Metia-se entre a pia baptismal e o altar e aí o encontrava,
quando voltava. (O Santíssimo estava aí por andar a Igreja em
obras).
Depois que adoeceu, dizia-me, às vezes, quando, a caminho
da escola, passava por sua casa:
– Olha: vai à Igreja e dá muitas saudades minhas a Jesus escondido. Do que tenho mais pena é de não poder já ir a estar uns bocados com Jesus escondido.
Um dia, ao chegar junto de sua casa, despedi-me dum grupo
de crianças da escola que vinham comigo e entrei, para lhe fazer
uma visita e a sua irmã. Como tinha sentido o barulho, perguntou-
me:
– Tu vinhas com todos esses?
– Vinha.
– Não andes com eles, que podes aprender a fazer pecados.

Quando saíres da escola, vai um bocado para o pé de Jesus escondido e depois vem sozinha.
Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, sentes-te muito mal?
– Sinto; mas sofro para consolar a Nosso Senhor.

Ao entrar, um dia, com a Jacinta, no seu quarto, disse-nos:
– Hoje falem pouco, que me dói muito a cabeça.
– Não te esqueças de oferecer por os pecadores
– Ihe disse a
Jacinta.
– Sim. Mas primeiro ofereço para consolar a Nosso Senhor, a
Nossa Senhora e depois, então, é que ofereço por os pecadores e
por o Santo Padre.

Outro dia, ao chegar, encontrei-o muito contente.
– Estás melhor?
– Não. Sinto-me muito pior. Já me falta pouco para ir para o
Céu. Lá vou consolar muito a Nosso Senhor e a Nossa Senhora. A
Jacinta vai a pedir muito por os pecadores, por o Santo Padre e
por ti; e tu ficas cá, porque Nossa Senhora o quer. Olha: faz tudo o
que Ela te disser.

Enquanto a Jacinta parecia preocupada com o único pensamento
de converter pecadores e livrar almas do inferno, ele parecia
só pensar em consolar a Nosso Senhor e a Nossa Senhora que
Ihe tinha parecido estarem tão tristes.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA- Francisco, o pequeno moralista

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA

11. Francisco, o pequeno moralista
Ao som do animado descante, foram-se juntando as vizinhas;
e, ao terminar, pediram uma nova repetição. Mas o Francisco
aproximou-se de mim e disse-me:
– Não cantemos mais isso. Nosso Senhor decerto agora não
gosta que cantemos essas coisas.

E lá nos escapámos como pudemos, por entre a outra criançada,
para o nosso poço predilecto.
Na verdade, eu, agora, que por obediência acabo de o escrever,
cubro a cara com vergonha. Mas V. Ex.cia Rev.ma, a pedido
do Senhor Dr. Galamba, achou por bem mandar-me escrever os cantares profanos que sabíamos. Aí vão! Não sei para quê. Mas
basta-me saber que é para cumprir a vontade de Deus.
Entretanto, aproximou-se o Carnaval de 1918. As raparigas e
rapazes juntaram-se, ainda esse ano, para a costumada cozinhada
e brincadeira desses dias. Cada um levava de sua casa uma coisa:
uns, azeite; outros, farinha; outros, carne; etc. e junto tudo em
uma casa, para isso destinada, as raparigas aí cozinhavam um
faustoso banquete. E nesses dias era comer e bailar até que horas
da noite, em especial no último dia.
As crianças de 14 anos para baixo tinham a sua festa noutra
casa, à parte. Vieram, pois, várias a convidar-me para com elas
organizar a festa. Recusei, a princípio; mas, levada por uma covarde condescendência, cedi às instâncias de várias, em especial duma filha e dois filhos dum homem da Casa Velha, José Carreira, que punha a sua casa à nossa disposição. Ele mesmo, com sua mulher, insistiam para que fosse. Cedi, pois, e lá fui com um bom rancho a ver o local: uma boa sala ou quase salão para a brincadeira e um bom pátio para o jantar. Combinou-se tudo e de lá vim, exteriormente em grande festa, mas, no íntimo, com a consciência a dar-me gritos de reprovação. Ao chegar junto da Jacinta e do Francisco, disse-lhes o que se tinha passado.
– E tu voltas a essas cozinhadas e brincadeiras? – me
perguntou, com seriedade, o Francisco. – Já te esqueceste que
prometemos nunca mais lá voltar?!

– Eu não queria ir; mas como bem vês que me não deixam, a
pedir-me que vá; e não sei como fazer.

Na verdade, as instâncias eram muitas, e as amigas que, para
brincar comigo, se juntavam, não eram menos. Vinham até de várias aldeias bem distantes: da Moita, uma Rosa e Ana Caetano e
Ana Brogueira; da Fátima, duas filhas de Manuel Caracol; de
Boleiros, duas filhas de Manuel da Ramira e duas de Joaquim
Chapeleta; da Amoreira, duas de Silva; dos Currais, uma Laura
Gato; Josefa Valinho e várias outras, cujos nomes não recordo, de
Boleiros, da Lomba, da Pederneira, etc.; e isto fora as que se juntavam da Eira da Pedra, Casa Velha e Aljustrel. Como, assim
repente, desenganar tudo isto, que parecia não saber divertir-se
sem mim, e fazer-lhes compreender que era preciso acabar para
sempre com tais reuniões?! Deus inspirou-o ao Francisco:
– Sabes como vais a fazer? Toda a gente sabe que Nossa Senhora
te apareceu; por isso, dizes que Lhe prometeste não tornar
mais a bailar e que, por isso, não vais.
Depois, nesses dias,
escapamo-nos para a Lapa do Cabeço; lá ninguém nos encontra.
Aceitei a proposta; e dada a minha decisão, ninguém pensou
mais em organizar tal assembleia. Era Deus a abençoar. E essas
amigas, que antes me procuravam para se divertir, agora
seguiam-me e vinham procurar-me a casa, aos Domingos pela tarde, para ir com elas rezar o terço à Cova da Iria.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Casos e canções

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
10. Casos e canções
Entre minha casa e a de Francisco vivia meu padrinho Anastácio,
casado com uma mulher de bastante idade, a quem o Senhor
não tinha dado descendência. Lavradores bastante ricos, não
precisavam de trabalhar. Meu pai tomava-lhes conta da lavoura e
guiava-lhes por lá os jornaleiros. Agradecidos por isso tinham uma
predilecção para comigo, sobretudo a dona da casa, a quem chamava a Madrinha Teresa. Se para lá não ia de dia, tinha que dormir a noite, pois ela dizia não poder passar sem o seu torrãozinho de carne – assim me chamava.
Nos dias de festa, gostava de me enfeitar com o seu cordão
d’ouro e as grandes argolas que me caíam bastante abaixo dos
ombros e o lindo chapeuzito na cabeça, coberto de contas d’ouro
que sujeitavam imensas penas de várias cores. Nos arraiais, não
aparecia outra mais enfeitada; e minhas irmãs, com a Madrinha
Teresa, reviam-se nisso. As outras crianças cercavam-me em numerosos grupos, admirando o brilho de tantos enfeites. A dizer a
verdade, eu também gostava bastante da festa, e a vaidade era o
meu pior enfeite. Todos mostravam simpatia e estima por mim,
menos uma orfãzinha de quem a Madrinha Teresa se tinha encarregado, ao morrer-lhe a mãe. Ela parecia temer que lhe viesse a tirar parte da herança que ela esperava e decerto não se teria enganado, se o bom Deus me não tivesse destinado uma outra herança bem mais preciosa.
Logo que se começou a espalhar a notícia das aparições, o Padrinho mostrou-se indiferente e a Madrinha completamente contrária.
Mostrava-se descontente por tais invenções, como ela dizia.
Comecei, por isso, a escapar-me quanto podia, de sua casa e,
comigo, começaram a desaparecer esses grupos de crianças que
aí, com frequência, se juntavam, e que a Madrinha tanto gostava
de ver dançar e cantar, dando-lhes figos secos, nozes, amêndoas,
castanhas, fruta, etc.
Passando, pois, um domingo de tarde, por junto de sua casa,
com o Francisco e a Jacinta, chamou-nos:
– Venham cá, meus intrujõezinhos, venham cá! Há já tanto
tempo que cá não vêm!
E lá nos foi a dar os seus mimos.
Parecendo adivinhar a nossa chegada, as outras crianças começaram-se a juntar. A boa madrinha, contente por tornar a ver
em sua casa essa reunião que havia tanto tempo se havia dispersado, depois de nos mimosear com várias coisas, quis ver-nos
dançar e cantar.
– Vamos lá: que há-de ser? que não há-de ser? – Escolheu
ela: – Os parabéns desenganados. Um desafio: os pequenos dum
lado, as pequenas do outro.

I
Coro
Tu és o sol desta esfera,
Não lhe negues os teus raios.
Sorrisos de primavera – ah!!!
Não convertas em desmaios!
1
Parabéns à rapariga,
Com fragrância, ao novo sol,
Porque, risonha, adivinha
Os mimos doutro arrebol.
2
É ano rico de flores,
Rico de frutas e bem!
E o novo, nos seus alvores,
Rico de esperanças te vem.
3
São o teu melhor presente,
Teus melhores parabéns!
Cinge com eles a fronte,
É a melhor c’roa que tens.
4
Se o passado te foi lindo,
Futuro mais lindo tens!
Parabéns pelo findo,
Pelo que entra, parabéns!
5
Nesta vida, flor do Atlântico,
Neste amigável festim,
Celebre-se, em ledo cântico.
O jardineiro e o jardim!
6
Compadecem-te as flores
De teu paterno torrão!
Teu lar de castos amores,
Teus laços de coração.
II
Coro
Achas acto, cavalheiro,
Que ao ver surdir o penal,
A Berlenga e o Carvoeiro (8) – ah!!!
Apaguem o seu farol?
1
Mas o mar em frol rebenta,
Remoinho, eterno fulcro!
Cada norte é uma tormenta,
Cada tormenta um sepulcro.

Tristes morros da Papoa,
Estelas e Farilhões !
Que tragédia não ressoa
Cada um de seus cachões!
3
Cada escolho, nestas águas,
É de morte um presságio!
Cada vaga canta mágoas,
Cada cruz lembra um naufrágio.
4
Pois tu queres ser mais duro,
Queres sumir-te, e és luz
Que, da vida, em mar escuro,
Tanto barquinho conduz?!
III
Coro
E fico d’olhos enxutos
Ao falar em despedida!
O hesitar foi de minutos - ah!!!
O imolar-me é de toda a vida.
1
Vai, mas diz ao Céu que corte
Da sua graça o raudal!
E as flores mirre de morte,
Por não seres seu canal.
2
Vai, que fico em desconforto,
Enlutado o Santuário!
Dobrará o bronze a morte,
Na grimpa do campanário.
3
Mas apenas me deixas
Da triste Igreja, no Adro,
Vou deixar eternas queixas,
Escrevendo em negro quadro!
4
Foi jardim risonho e belo
Este solo hoje sem flor!
Não lhe faltou o desvelo;
Faltou ele ao seu cultor.
5
Espero da Providência
Futurosos carinhos!
Esperem-nos, com preferência,
As que deixam pátrios ninhos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Influência das últimas Aparições

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
9. Influência das últimas Aparições
Quando, depois do dia 13 de Setembro, lhe disse que em
Outubro vinha também Nosso Senhor, ele mostrou grande alegria:
– Ai que bom! Só O vimos duas vezes ainda e eu gosto
tanto d’Ele!

De vez em quando perguntava:
– Ainda faltarão muitos dias para o dia 13? Estou ansioso que
venha, para ver outra vez a Nosso Senhor.

Depois, pensava um pouco, e dizia:
– Mas, olha: Ele ainda estará tão triste?! Tenho tanta pena que
esteja assim tão triste! Eu ofereço-Lhe todos os sacrifícios que posso arranjar. Às vezes, já nem fujo dessa gente, para fazer sacrifícios.

Depois do dia 13 de Outubro, dizia:
– Gostei muito de ver Nosso Senhor. Mas gostei mais de O ver
naquela luz onde nós estávamos também. Daqui a pouco, já Nosso
Senhor me leva lá pró pé d’Ele e, então, vejo-O sempre.

Um dia, perguntei-lhe:
– Por que é que tu, quando te perguntam alguma coisa, baixas
a cabeça e não queres responder?

– Porque antes quero que o digas tu e mais a Jacinta. Eu não
ouvi nada. Só posso dizer que sim, que vi. E, depois, se digo alguma coisa dessas que tu não queres?

De vez em quando, afastava-se de nós dissimuladamente.
Quando lhe dávamos pela falta, punhamo-nos à sua procura, chamando por ele. Lá nos respondia, detrás duma paredita ou de algum arbusto ou silvado, onde estava de joelhos, a rezar.
– Por que não nos dizes para rezarmos contigo? – lhe perguntava,
às vezes.
– Porque gosto mais de rezar sozinho.
Já contei, em as notas sobre o livro «Jacinta» o que se passou
em uma propriedade chamada Várzea. Parece-me que não é preciso
repeti-lo aqui.
Um dia, passávamos, para minha casa, em frente da casa de
minha madrinha de baptismo. Ela acabava de fazer a água-mel e
chamou-nos para nos dar um copo dela. Entrámos, e o Francisco
foi o primeiro a quem ela deu o copo, para que bebesse. Pega nele
e, sem beber, passa-o à Jacinta, para que beba primeiro, comigo;
e, entretanto, numa meia volta, desapareceu.
– Onde está o Francisco? – pergunta a minha Madrinha.
– Não sei; não sei. Ainda agora aqui estava!
Não apareceu. E a Jacinta, comigo, agradecendo a dádiva, lá
fomos ter com ele, onde não duvidámos um instante que estaria,
sentado na beira do poço já tantas vezes mencionado.
– Francisco, tu não bebeste a água-mel! A Madrinha chamou
tantas vezes por ti, mas não apareceste!

– Quando peguei no copo, lembrei-me de repente de fazer
aquele sacrifício para consolar a Nosso Senhor e, enquanto vocês
bebiam, fugi para aqui.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Comportamento em Ourém

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
8. Comportamento em Ourém
Já disse como ele passou o dia a chorar e a rezar, numa aflição
talvez maior que a minha, quando meu pai foi intimado a
levar-me a Vila Nova de Ourém.
Na prisão, mostrou-se bastante animado e procurava animar
a Jacinta nas horas de mais saudade.
Quando rezámos o terço, na prisão, ele viu que um dos presos
estava de joelhos com a boina na cabeça. Foi junto dele e
disse-lhe:
– Vossemecê, se quer rezar, tem de tirar a boina.
E o pobre homem, sem mais, entrega-lha, e ele põe-na em
cima do seu carapuço, sobre um banco.
Enquanto interrogavam a Jacinta, ele dizia-me, com imensa
paz e alegria:
– Se nos matarem, como dizem, daqui a pouco estamos no
Céu! Mas que bom! Não me importa nada.

E passado um momento de silêncio:
– Deus queira que a Jacinta não tenha medo. Vou a rezar uma
Ave-Maria por ela!

Sem mais, tira o carapuço e reza. O guarda, ao vê-lo em atitude
de rezar, pergunta-lhe:
– Que estás a dizer?
– Estou a rezar uma Ave-Maria, para (que) a Jacinta não tenha
medo.

O guarda fez um gesto de desprezo e deixou correr.
Quando, depois do regresso de Vila Nova de Ourém, começámos
a sentir que a presença do sobrenatural nos envolvia,
sentindo que alguma comunicação celeste se aproximava, o
Francisco mostrava-se preocupado por a Jacinta não estar.
– Que pena – dizia –, se a Jacinta não vem a tempo!
E pediu ao irmão que fosse depressa.
– Diz-lhe que venha a correr.
Depois do Irmão partir, dizia-me:
– A Jacinta, se não vem a tempo, vai ficar muito triste.

Depois da aparição, disse para a irmã, que queria ficar ali o
resto da tarde:
– Não. Tu tens de ir embora, porque a Mãe, hoje, não te deixou
vir com as ovelhas.

E, para a animar, foi acompanhá-la a casa.
Quando, na prisão, vimos que se passava a hora do meio-dia
e que não nos deixavam ir à Cova da Iria, o Francisco dizia:
– Talvez que Nossa Senhora nos venha a aparecer aqui.
Mas, no dia seguinte, manifestava grande pena e dizia, quase
a chorar:
– Nossa Senhora é capaz de ter ficado triste, por a gente não
ir à Cova de Iria, e não voltar mais a aparecer-nos. E eu gostava
tanto de A ver!

Quando a Jacinta, na cadeia, chorava com saudades da mãe e da família, ele procurava animá-la e dizia:
– A Mãe, se não a tornarmos a ver, paciência! Oferecemos
pela conversão dos pecadores. O pior é se Nossa Senhora não
volta mais! Isso é que mais me custa! Mas também o ofereço pelos
pecadores.

Depois, perguntava-me:
– Olha: Nossa Senhora não voltará mais a aparecer-nos?
– Não sei. Penso que sim.

– Tenho tantas saudades d’Ela!
A aparição nos Valinhos foi, pois, para ele, de dobrada alegria.
Sentia-se torturado pelo receio de que Ela não voltasse. Depois,
dizia:
– Decerto não nos apareceu no dia 13 para não ir à casa do
Senhor Administrador, talvez por ele ser tão mau.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Influência da terceira Aparição

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
7. Influência da terceira Aparição
Na terceira aparição, o Francisco pareceu ser o que menos se
impressionou com a vista do inferno, embora Ihe causasse também
uma sensação bastante grande.
O que mais o impressionava ou absorvia era Deus, a Santíssima
Trindade, nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma. Depois, dizia:
– Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos
queimávamos. Como é Deus!!! Não se pode dizer! Isto sim, que a
gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O
pudesse consolar!...

Um dia perguntaram-me se Nossa Senhora nos tinha mandado
rezar por os pecadores. Eu respondi que não. Logo que pôde,
enquanto interrogavam a Jacinta, chamou-me e disse-me:
– Tu agora mentiste. Como é que disseste que Nossa Senhora
não nos mandou rezar por os pecadores? Então Ela não nos mandou rezar por os pecadores?!

– Por os pecadores, não. Mandou-nos rezar por a paz, para
acabar a guerra. Por os pecadores, mandou-nos fazer sacrifícios.

– Ah! É verdade. Já estava a pensar que tinhas mentido.


MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Francisco encoraja a Lúcia

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA

6. Francisco encoraja a Lúcia
No decorrer deste mês, aumentou consideravelmente a afluência
de gente e, com ela, os contínuos interrogatórios e contradições.
O Francisco sofria bastante com isso e lamentava-se, dizendo para
a irmã:
– Que pena! Se tu te tivesses calado, ninguém o sabia. Se não
fosse por ser mentira, dizíamos a toda a gente que não vimos nada
e tudo acabava. Mas isso não pode ser!

Quando me via perplexa com a dúvida, chorava e dizia:
– Mas como é que tu podes pensar que é o demónio? Não
viste Nossa Senhora e Deus naquela luz tão grande? Como é que
nós vamos a ir sem ti, se tu é que tens de falar?


Depois da ceia, já noite, voltou ainda a minha casa, chamou-me
à velha eira e disse-me:
– Olha: tu amanhã vais?
– Não vou; já te disse que não volto mais.
– Mas que tristeza! Por que é que tu agora pensas assim?

Não vês que não pode ser o demónio? Deus já está tão triste com
tantos pecados e, agora, se tu não vais, fica ainda mais triste! Anda,
vai!
– Já te disse que não vou; escusas de mo pedir.
E meti-me bruscamente em casa.
Passados alguns dias, dizia-me:
– Credo! Aquela noite não dormi nada; passei-a toda a chorar
e a rezar, para que Nossa Senhora te fizesse ir.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Influência da segunda Aparição

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA

5. Influência da segunda Aparição
Na segunda aparição, 13 de Junho (de) 1917, o Francisco
impressionou-se muito com a comunicação do reflexo que já disse
no segundo escrito que foi no momento em que Nossa Senhora
disse:
– O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho
que te conduzirá até Deus.

Ele parecia não ter, no momento, a compreensão dos factos,
talvez por não Ihe ser dado ouvir as palavras que os acompanhavam.
Por isso, depois, perguntava:
– Para que estava Nossa Senhora com um coração na mão,
espalhando pelo mundo essa luz tão grande que é Deus? Tu estavas
com Nossa Senhora na luz que descia para a terra, e a Jacinta,
comigo, na que subia para o Céu.

– É que – Ihe respondi – tu, com a Jacinta, vais breve para o
Céu e eu fico com o Coração Imaculado de Maria mais algum tempo na terra.

– Quantos anos cá ficas? – perguntava.
– Não sei; bastantes.
– Foi Nossa Senhora que o disse?

– Foi. E eu vi-o nessa luz que nos meteu no peito.
E a Jacinta confirmava isto mesmo, dizendo:
– É assim, é! Eu também assim o vi!
Por vezes, dizia:
– Esta gente fica tão contente só por a gente Ihe dizer que
Nossa Senhora mandou rezar o terço e que aprendesses a ler! O
que seria, se soubessem o que Ela nos mostrou em Deus, no Seu
Imaculado Coração, nessa luz tão grande! Mas isso é segredo,
não se lhes diz. É melhor que ninguém o saiba.

Desde esta aparição, começámos a dizer, quando nos perguntavam
se Nossa Senhora nos não tinha dito mais nada:
– Sim, disse, mas é segredo.
Se nos perguntavam o motivo por que era segredo, encolhíamos
os ombros e, baixando a cabeça, guardávamos silêncio.
Mas, passado o dia 13 de Julho, dizíamos:
– Nossa Senhora disse-nos que não o disséssemos a ninguém
– referindo-nos, então, ao segredo imposto por Nossa Senhora.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Influência da primeira Aparição de Nossa Senhora

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA
4. Influência da primeira Aparição de Nossa Senhora
A aparição de Nossa Senhora veio de novo a concentrar-nos
no sobrenatural, mas mais suavemente: em vez daquele aniquilamento na Divina Presença, que prostrava, mesmo fisicamente, deixou-nos uma paz e alegria expansiva que nos não impedia falar, em seguida, de quanto se tinha passado. No entanto, a respeito do reflexo que Nossa Senhora, com as mãos, nos tinha comunicado e de tudo que, com ele, se relacionava, sentíamos um não sei quê interior que nos movia a calar.
Contámos, em seguida, ao Francisco, tudo quanto Nossa Senhora
tinha dito. E ele, manifestando o contentamento que sentia,
na promessa de ir para o Céu, cruzando as mãos sobre o peito,
dizia:
– Ó minha Nossa Senhora, terços, rezo todos quantos Vós
quiserdes.

E, desde aí, tomou o costume de se afastar de nós, como que
passeando; e se chamava por ele e Ihe perguntava que andava a
fazer, levantava o braço e mostrava-me o terço. Se Ihe dizia que
viesse brincar, que depois rezava connosco, respondia:
– Depois também rezo. Não te lembras que Nossa Senhora
disse que tinha de rezar muitos terços?

Um dia, disse-me:
– Gostei muito de ver o Anjo, mas gostei ainda mais de Nossa
Senhora. Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela
luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!
Mas Ele está tão triste, por causa de tantos pecados! Nós nunca
havemos de fazer nenhum.

Já disse, no segundo escrito sobre a Jacinta, como foi ele que
me deu a notícia de que ela tinha faltado ao nosso contrato de não
dizer nada. E como era de meu parecer que se guardasse segredo,
acrescentou, com ar triste:
– Eu, como minha Mãe me perguntou se era verdade, tive que
dizer que sim, para não mentir.

Por vezes, dizia:
– Nossa Senhora disse que íamos a ter muito que sofrer! Não
me importo; sofro tudo quanto Ela quiser! O que eu quero é ir para
o Céu.

Um dia que eu me mostrava descontente com a perseguição
que dentro e fora da família se começava a levantar, ele procurou
animar-me, dizendo:
– Deixa lá. Não disse Nossa Senhora que íamos a ter muito
que sofrer, para reparar a Nosso Senhor e o Seu Imaculado Coração, de tantos pecados com que são ofendidos? Eles estão tão
tristes! Se com estes sofrimentos os pudermos consolar, já ficamos
contentes.

Poucos dias depois da primeira aparição de Nossa Senhora,
ao chegar à pastagem, subiu-se a um elevado penedo e disse-nos:
– Vocês não venham para aqui; deixem-me estar sozinho.
– Está bem.

E pus-me, com a Jacinta, atrás das borboletas que apanhávamos,
para logo fazer o sacrifício de deixar fugir, e nem mais do
Francisco nos lembrou. Chegada a hora da merenda, demos pela
sua falta, e lá fui a chamá-lo:
– Francisco, não queres vir a merendar?
– Não. Comam vocês.
– E a rezar o terço?
– A rezar, depois vou. Torna-me a chamar.

Quando voltei a chamá-lo, disse-me:
– Venham vocês a rezar aqui pró pé de mim.
Subimos para o cimo do penedo, onde mal cabíamos os três
de joelhos, e perguntei-lhe:
– Mas que estás aqui a fazer tanto tempo?
– Estou a pensar em Deus que está tão triste, por causa de
tantos Recados! Se eu fosse capaz de Lhe dar alegria !

Um dia, pusemo-nos a cantar, em coro, as alegrias da Serra:


Coro
Ai, trai lari, lai, lai,
Trai lari, lai, lai,
Lai, lai, lai!
1
Nesta vida tudo canta,
Comigo, ao desafio:
Canta a pastora na serra
E a lavadeira no rio.
2
É a voz do pintassilgo
Que me vem a despertar,
Logo ao nascer do sol,
No silvado, a cantar!
(5) Pode dizer-se que o Francisco recebeu o dom da contemplação.
143
3
De noite, canta a coruja
Que me quer assustar!
Na escamisada, canta
A rapariga ao luar!
4
O rouxinol, na campina,
Passa o dia a cantar!
Canta a rola no bosque,
Canta o carro a chiar!
5
A serra é um jardim
Todo o dia a sorrir!
São as gotas do orvalho,
Nas montanhas, a luzir!

 
Terminada a primeira vez, íamos a repetir, mas o Francisco
interrompeu:
– Não cantemos mais. Desde que vimos o Anjo e Nossa Senhora,
já não me apetece cantar.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -QUARTA MEMÓRIA-Participação nas Aparições do Anjo

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA

3. Participação nas Aparições do Anjo
Na aparição do Anjo, prostrou-se como sua irmã e eu, levado
por uma força sobrenatural que a isso nos movia; mas a oração
aprendeu-a ouvindo-nos repeti-la, pois, ao Anjo, dizia não ter ouvido nada.
Quando, depois, nos prostrávamos para rezar essa oração,
ele era o primeiro que se cansava da posição, mas permanecia de
joelhos ou sentado, rezando também, até que nós acabássemos.
Depois, dizia:
– Eu não sou capaz de estar assim tanto tempo como vocês.
Doem-me as costas tanto que não posso.

Na segunda aparição do Anjo, no poço, perguntou, passados
os primeiros momentos que se Ihe seguiram:
– Tu falaste com o Anjo; que é que Ele te disse?
– Não ouviste?
– Não. Vi que falava contigo, ouvi o que tu Ihe disseste, mas o
que Ele te disse não sei.

Como a atmosfera do sobrenatural em que Ele nos deixava
ainda não tinha de todo passado, disse-lhe que mo perguntasse
no dia seguinte, ou à Jacinta.
– Jacinta, conta-me tu o que disse o Anjo.
– Digo-to amanhã. Hoje não posso falar.

No dia seguinte, logo que chegou junto de mim, perguntou-me:
– Dormiste esta noite? Eu pensei sempre no Anjo e no que
seria que Ele disse.

Contei-lhe, então, tudo o que o Anjo tinha dito na primeira e
segunda aparição. Mas ele parecia não ter recebido a compreensão
do que as palavras significavam e perguntava:
– Quem é o Altíssimo? Que quer dizer: os Corações de Jesus
e Maria estão atentos à voz das vossas súplicas?
Etc.
E, obtida a resposta, ficava-se pensando, para logo interromper
com outra pergunta. Mas o meu espírito ainda não estava de todo
livre e disse-lhe que esperasse para o dia seguinte, que naquele
ainda não podia falar.
Esperou, contente, mas não deixou perder as primeiras ocasiões, para logo fazer novas perguntas, o que levou a Jacinta a
dizer-lhe:
– Olha: nessas coisas fala pouco.

Quando falávamos no Anjo, não sei o que sentíamos. A Jacinta
dizia:
– Não sei o que sinto; já não posso falar, nem cantar, nem
brincar e não tenho força para nada.

– Eu também não – respondeu o Francisco. – Mas que importa?
O Anjo é mais bonito que tudo isso. Pensemos n’Ele.

Na terceira aparição, a presença do sobrenatural foi ainda
muitíssimo mais intensa. Por vários dias, nem mesmo o Francisco
se atrevia a falar. Dizia depois:
– Gosto muito de ver o Anjo; mas o pior é que, depois, não
somos capazes de nada. Eu nem andar podia, não sei o que tinha!

 
Apesar de tudo, foi ele quem se deu conta, depois da terceira
aparição do Anjo, das proximidades da noite. Foi quem disso nos
advertiu e quem pensou em conduzir o rebanho para casa.
Passados os primeiros dias e recuperado o estado normal,
perguntou o Francisco:
– O Anjo, a ti, deu-te a Sagrada Comunhão; mas a mim e à
Jacinta, que foi o que Ele nos deu?

– Foi também a Sagrada Comunhão – respondeu a Jacinta,
numa felicidade indizível. – Não vês que era o Sangue que caía da
Hóstia?

– Eu sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como
era!

E prostrando-se por terra, permaneceu por largo tempo, com a
sua Irmã, repetindo a oração do Anjo: Santíssima Trindade..., etc.
Pouco a pouco, foi passando aquela atmosfera e, no dia 13 de
Maio, brincávamos já quase com o mesmo gosto e com a mesma
liberdade de espírito.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA-Inclinações naturais

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA

2. Inclinações naturais
No que ele se entretinha mais, quando andávamos pelos montes,
era, sentado no mais elevado penedo, a tocar o seu pífaro ou
a cantar. Se a sua irmãzinha descia para comigo dar algumas corridas, ele lá ficava entretido com as suas músicas e cantos. O que ele cantava com mais frequência era:


Coro
Amo a Deus no céu.
Amo (-O) também na terra.
Amo o campo, as flores.
Amo as ovelhas na serra.
Sou uma pobre pastora,
Rezo sempre a Maria.
No meio do meu rebanho,
Sou o sol do meio-dia.
Com os meus cordeirinhos
Eu aprendi a saltar.
Sou a alegria da serra,
Sou o lírio do vale.


Nos jogos, tomava parte sempre que a isso o convidávamos,
mas, às vezes, manifestava pouco entusiasmo, dizendo:
– Vou, mas já sei que perco.
Os jogos que sabíamos e em que nos entretínhamos eram: o
das pedrinhas, o das prendas, passar o anel, o do botão, o fito, a
malha, as cartas, jogar a bisca, descobrir os reis, os condes e as
sotas, etc. Tinhamos dois baralhos: um meu, outro deles. O jogo
preferido pelo Francisco era o das cartas, a bisca.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA-RETRATO DE FRANCISCO

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA

I. RETRATO DE FRANCISCO
1. Espiritualidade

Vou, pois, começar, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, por escrever
o que o bom Deus me queira fazer lembrar do Francisco. Espero
que Nosso Senhor lhe faça conhecer, no Céu, o que a seu respeito
escrevo na terra, para que, junto de Jesus e Maria, interceda por
mim, em especial nestes dias.
A amizade que me unia ao Francisco era apenas a de parentesco e a que consigo traziam as graças que o Céu se dignava conceder-nos.
O Francisco não parecia irmão da Jacinta senão nas feições
do rosto e na prática da virtude. Não era, como ela, caprichoso e
vivo; era, ao contrário, de natural pacífico e condescendente.
Quando, nos nossos (jogos) e brincadeiras, algum se empenhava
em negar-lhe os seus direitos por ter ganhado, cedia sem
resistência, limitando-se a dizer apenas:
– Pensas que ganhaste tu? Pois sim! A mim isso não me importa.

 
Não manifestava, como a Jacinta, a paixão pela dança; gostava
mais de tocar o pifarito, enquanto os outros dançavam.
Nos jogos, era bastante animado, mas poucos gostavam de
jogar com ele, porque perdia quase sempre. Eu mesma confesso
que simpatizava pouco com ele, porque o seu natural pacifico
excitava, por vezes, os nervos da minha demasiada vivacidade.
Às vezes, pegava-lhe por um braço, obrigava-o a sentar-se no chão
ou em alguma pedra, mandava-lhe que estivesse quieto e ele
obedecia-me, como se eu tivesse uma grande autoridade. Depois,
sentia pena, ia buscá-lo pela mão e vinha com o mesmo bom humor, como se nada tivesse acontecido. Se alguma das outras crianças porfiava em tirar-lhe alguma coisa que lhe pertencesse, dizia:
– Deixa lá! A mim que me importa?
Recordo que chegou, um dia, a minha casa com um lenço do
bolso, com Nossa Senhora de Nazaré pintada, que dessa praia
acabavam de lhe trazer. Mostrou-mo com grande alegria e toda
aquela criançada o veio admirar. De mão em mão, a poucos instantes, o lenço desapareceu. Procurou-se, mas não se encontrava.
Pouco depois, descobri-o no bolso dum outro pequeno. Quis-lho
tirar, mas ele porfiava que era dele, que também Iho tinham trazido
da praia. Então, o Francisco, para acabar com a contenda, aproximou-se, dizendo:
– Deixa-o lá! A mim que me importa o lenço?
Parece-me que, se houvesse crescido, o seu defeito principal
seria o de não-te-rales.
Quando, aos 7 anos, comecei a pastorear o meu rebanho, ele
pareceu ficar indiferente. Lá ia, à noite, esperar-me com a sua
irmãzinha, mas parecia ir mais para lhe fazer a vontade que por
amizade. Iam esperar-me no pátio de meus pais. E enquanto a
Jacinta corria a meu encontro, logo que sentia os chocalhos do
rebanho, ele esperava-me sentado nuns degraus de pedra que
havia em frente da porta de casa. Depois, lá ia connosco, para a
velha eira, a brincar, enquanto esperávamos que Nossa Senhora e
os Anjos acendessem as Suas candeias. Animava-se também a
contá-las, mas nada o encantava tanto como o lindo nascer e
pôr-do-sol. Enquanto deste se avistava algum raio, não investigava
se já havia alguma candeia acesa.
– Nenhuma candeia é tão bonita como a de Nosso Senhor –
dizia ele à Jacinta que gostava mais da de Nossa Senhora, porque,
dizia ela, não faz doer a vista.
E entusiasmado seguia com a vista todos os raios que,
dardejando nos vidros das casas das aldeias vizinhas ou nas gotas
de água espalhadas nas árvores e matos da serra, (os) faziam
brilhar como outras tantas estrelas, a seu ver mil vezes mais bonitas
que as dos Anjos.
Quando, com tanta insistência, pediu à mãe que o deixasse ir
com o seu rebanho para andar comigo, era mais bem por fazer a
vontade à Jacinta que gostava mais dele que de seu irmão João.
Um dia que a mãe, já pouco contente, lhe negava essa licença,
respondeu com a sua paz natural:
– A mim, minha Mãe, pouco me importa. A Jacinta é que quer
que eu vá.

Em outra ocasião, confirmou isto mesmo. Veio a minha casa
uma das minhas antigas companheiras convidar-me para ir com
ela, pois tinha, para esse dia, uma boa pastagem. Como o dia se
apresentava fosco, fui a casa de minha tia perguntar se ia o Francisco com a Jacinta ou se ia seu irmão João, porque, no caso de ir este último, preferia a companhia da outra antiga companheira.
Minha tia tinha já decidido que, aquele dia, por estar de chuva, ia
o João. Mas o Francisco quis ir ainda junto da mãe fazer uma nova
insistência. Ao receber um não, seco e sacudido, respondeu:
– A mim, tanto me dá. A Jacinta é que tem mais pena.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA-PREFÁCIO

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA
PREFÁCIO
1. Confiança e abandono
J. M. J.
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
Depois duma humilde prece aos pés do Sacrário e do Imaculado
Coração de Maria, nossa tão querida Mãe do Céu, pedindo
a graça de não permitirem que escreva nem uma só letra que não
seja para a Sua glória, venho na paz e felicidade dos que têm a
consciência certa de que fazem em tudo a Divina Vontade.
É, pois, completamente abandonada nos braços do Pai Celeste
e na protecção do Imaculado Coração de Maria, que venho
depor, mais esta vez, nas mãos de V. Ex.cia Rev.ma, os frutos da
minha única árvore – a obediência.
2. Despojamento total
Antes de começar, quis abrir o Novo Testamento, único livro
que quero ter aqui diante de mim, a um retirado canto do sótão (
Escreve no Noviciado, em Tuy, no sótão)., à luz duma pobre telha de vidro, para onde me retiro, para escapar, quanto me seja possível, às vistas humanas. De mesa, serve-me o regaço; de cadeira, uma velha mala.
– Por que – me dirá alguém – não escreve na sua cela?
O bom Deus achou por bem privar-me até de cela, apesar de
aqui em casa haver bastantes e desocupadas. Na verdade, para
a realização de Seus desígnios, é mais a propósito a sala do recreio
e trabalho, tanto mais incómoda para escrever alguma coisa
durante o dia, tanto demasiado boa para descansar durante a noite.
Mas estou contente e agradeço a Deus a graça de ter nascido
pobre e de, por Seu amor, viver mais pobre ainda.
– Ai, meu Deus! Não era nada disto o que eu queria dizer!
Volto ao que Deus me deparou, ao abrir o Novo Testamento:
uma carta de S. Paulo aos Fil. 2, 5-8. Li assim: «Tende em vós os
mesmos sentimentos que houve em Jesus Cristo, O qual, existindo na forma de Deus..., Se aniquilou a Si mesmo, tomando a forma
de servo... Humilhou-se a Si mesmo, feito obediente até à morte».
Depois de reflectir um pouco, li ainda no mesmo cap. 5, 12 e 13:
«Trabalhai na vossa salvação com temor e tremor. Porque Deus é
O que opera em vós o querer e o executar, segundo o Seu beneplácito».
Está bem. Não preciso de mais: obediência e abandono em
Deus que é Quem opera em mim. Na verdade, não sou mais que o
pobre e miserável instrumento de que Ele se quer servir e que
dentro em pouco, como o pintor que arremessa ao lume o pincel
inutilizado, para que se reduza a cinzas, assim o Divino Pintor fará
reduzir às cinzas do túmulo o Seu inutilizado instrumento, até ao
grande dia das aleluias eternas. E eu desejo ardentemente este
dia, porque o túmulo não aniquila tudo, e a felicidade do amor eterno e infinito começa já.

3. Assistência do Espírito Santo
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
No dia 7-10-1941, perguntava-me, em Valença, Sua Rev.cia o
Senhor Dr. Galamba:
– A Irmã, quando disse que a penitência estava feita só em
parte, disse-o de si mesma ou foi-lhe revelado?

Parece-me, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, que, proveniente de
mim só, não digo nem escrevo, em tais casos, coisa alguma. Tenho
que agradecer a Deus a assistência do Divino Espírito Santo que
sinto sugerindo-me o que devo escrever ou dizer. Se, por vezes, a
própria imaginação ou entendimento me sugere alguma coisa, sinto
logo que lhe falta a unção divina e suspendo até conhecer, no íntimo da minha alma, o que Deus quer dizer em seu lugar (3). Mas por que estou eu a dizer tudo isto? Não sei. Sabe-o Deus que inspirou V. Ex.cia Rev.ma a mandar-me que diga tudo; que, advertidamente, não oculte nada.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - QUARTA MEMÓRIA

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA 
QUARTA MEMÓRIA
Introdução
Também esta memória, a mais extensa de todas, tem origem ocasional, não por iniciativa da Lúcia, mas dos seus Superiores. No dia 7 de Outubro de 1941 apresentam-se, em Valença do Minho, o Sr. Bispo e o Dr. Galamba, bem apetrechados de interrogatórios. Ali se deslocou Lúcia.
Recebem o escrito da Terceira Memória e começam com os novos
desejos do Dr. Galamba e as ordens do Sr. D. José. Era tão grande a
urgência, que Lúcia, acabado o primeiro grande caderno, em 25 de Novembro, imediatamente o enviava ao Sr Bispo. O segundo e último estava terminado no dia 8 de Dezembro.
Que se pedia, agora, a Lúcia? Alguém teria querido já «tudo»... mas o Sr. Bispo, prudentemente, havia recordado: «Isso não mando!...» Sem dúvida, o que se pedia desta vez a Lúcia era muito:
1. °– O Dr. Galamba fez muitas perguntas a que, por falta de tempo,
nessa ocasião, teria de responder por escrito.
2.°– Escrever tudo o que recordasse sobre o Francisco, como tinha feito para a Jacinta
3.°– Escrever, com mais pormenores, as aparições do Anjo.
4. °– Uma nova história das aparições.
5. °– Tudo o que ainda pudesse recordar sobre a Jacinta.
6. °– Não deixar de escrever os verses profanos que cantava.
7 °– Ler o livro do P.e Fonseca e anotar tudo o que lhe parecesse menos exacto.
Efectivamente, com notável esforço e limpidez admirável, Lúcia trata de todas essas questões, dando-lhes uma extensa resposta. Com toda a verdade, podia dizer ao Sr Bispo: «Parece-me, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, ter escrito tudo o que, por agora, V Ex.cia Rev.ma me mandou».
Advertidamente, portanto, só não manifesta a terceira parte do segredo.
O «espírito», com que escreve não difere do das anteriores memórias:
«...obediência e abandono em Deus, que é Quem opera em mim.
Na verdade, eu não sou mais que o pobre e miserável instrumento de que Ele se quer servir. O Divino Pintor fará reduzir às cinzas do túmulo o Seu inutilizado instrumento, até ao dia das aleluias eternas».

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA -EPÍLOGO

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA

EPÍLOGO
Eis, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, o mais que recordo da Jacinta
e que me parece ainda não disse. O sentido de tudo que digo é
exacto. Na maneira de me exprimir, não sei se trocarei alguma
palavra por outra, como, por exemplo: Quando falávamos de Nossa
Senhora. Agora não recordo bem os momentos em que empregávamos a frase duma maneira ou de outra. E assim alguns outros pequenos detalhes que me parece não terão importância maior.
Ofereço a nosso bom Deus e ao Imaculado Coração de Maria
este pequeno trabalho, fruto da minha pobre e humilde submissão
aos que m’O representam, e peço se dignem fazê-lo frutificar, para
a Sua Glória e bem das almas.


Tuy, 31-8-1941.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Amor da Jacinta ao Coração Imaculado de Maria

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA

9. Amor da Jacinta ao Coração Imaculado de Maria
Pouco tempo antes de ir para o hospital, dizia-me:
– Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres
que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Imaculado
Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas.
Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do
Coração Imaculado de Maria; que Ihas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria.


Um dia, deram-me uma estampa do Coração de Jesus, bastante
bonita, para o que os homens podem fazer. Levei-a à Jacinta:
– Queres este santinho?
Pegou nele, olhou-o com atenção e disse:
– É tão feio! Não se parece nada com Nosso Senhor que é tão
bonito! Mas quero; sempre é Ele.

E trazia-o sempre com ela. De noite e na doença tinha-o debaixo
da almofada, até que se rompeu. Beijava-o com frequência e
dizia:
– Beijo-o no Coração, que é do que mais gosto. Quem me
dera também um Coração de Maria! Não tens nenhum? Gostava
de ter os dois juntos.

Em outra ocasião, levei-lhe uma estampa que tinha o sagrado
cálix com uma hóstia. Pegou nele, beijou-o e, radiante de alegria,
dizia:
– É Jesus escondido! Gosto tanto d’Ele! Quem me dera
recebê-l’O na Igreja! No Céu não se comunga? Se lá se comungar,
eu comungo todos os dias. Se o Anjo fosse ao hospital a levar-me
outra vez a Sagrada Comunhão! Que contente que eu ficava!

 
Quando, às vezes, voltava da Igreja e entrava em sua casa,
perguntava-me:
– Comungaste?
Se lhe dizia que sim:
– Chega-te aqui bem para junto de mim, que tens em teu coração
a Jesus escondido.

Outras vezes, dizia-me:
– Não sei como é! Sinto a Nosso Senhor dentro em mim. Compreendo o que me diz e não O vejo nem oiço; mas é tão bom estar com Ele!
Em outra ocasião:
– Olha: sabes? Nosso Senhor está triste, porque Nossa Senhora
disse-nos para não O ofenderem mais, que já estava muito
ofendido, e ninguém fez caso; continuam a fazer os mesmos pecados.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Interpretação do silêncio da Lúcia

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA

8. Interpretação do silêncio da Lúcia
Pode ser, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, que a alguém pareça
que eu devia ter manifestado todas estas coisas há mais tempo,
porque, a seu parecer, teriam, há alguns anos antes, dobrado valor. Assim seria, se Deus tivesse querido apresentar-me ao Mundo
como profeta. Mas creio que tal não foi o intento de Deus, ao
manifestar-me todas estas coisas. Se assim fosse, penso que, quando, em 1917, me mandou calar, a qual ordem foi confirmada por meio dos que O representavam, ter-me-ia mandado falar. Julgo, pois, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, que Deus quis apenas servir-se de mim para recordar ao Mundo a necessidade que há de evitar o pecado e reparar a Deus ofendido, pela oração e pela penitência.
Onde me teria ocultado, para não responder às inúmeras perguntas
que sobre isto me teriam sido feitas?! Ainda agora temo, só em pensar o que poderá vir! E confesso que a repugnância em
manifestá-lo é tal que, apesar de ter diante de mim a carta em que V.Ex.cia me manda apontar tudo mais que me possa lembrar, e de
sentir interiormente que é esta a hora marcada por Deus para o
fazer, estou hesitando, com verdadeira luta, se entrego o escrito
ou se o queimo. Não sei ainda o que vencerá. Será o que Deus
quiser. O silêncio tem sido para mim uma grande graça.
O que teria sido com a exposição do inferno?! Sem encontrar
palavras exactas que digam a realidade, pois o que digo é nada,
dá apenas uma fraca ideia, teria dito, ora uma coisa ora outra,
querendo-me explicar sem o conseguir. Formaria, assim, talvez,
uma tal confusão de ideias, que viriam – quem sabe? – a estragar
a obra de Deus. Por isso dou graças a Deus e creio que tudo o que
Ele faz está bem.
Ordinariamente, Deus acompanha as Suas revelações dum
conhecimento íntimo e minucioso do que elas significam. Mas nisso não me atrevo a falar, pois temo haver aí, o que parece muito
fácil, engano da própria imaginação. A Jacinta parecia ter este conhecimento em grau bastante elevado.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Visões da guerra

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA
7. Visões da guerra
Um dia fui a sua casa, para estar um pouco com ela. Encontrei-
a sentada na cama, muito pensativa.
– Jacinta, que estás a pensar?
– Na guerra que há-de vir. Há-de morrer tanta gente! E vai
quase toda para o inferno ! Hão-de ser arrasadas muitas casas
e mortos muitos Padres. Olha: eu vou para o Céu. E tu, quando
vires, de noite, essa luz que aquela Senhora disse que vem antes,
foge para lá também !

– Não vês que para o Céu não se pode fugir?
– É verdade! Não podes. Mas não tenhas medo! Eu, no Céu,
hei-de pedir muito por ti, por o Santo Padre, por Portugal, para que a guerra não venha para cá, e por todos os Sacerdotes.

Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo! V. Ex.cia não ignora como, há
alguns anos, Deus manifestou esse sinal que os astrónomos quiseram designar com o nome de aurora boreal. Não sei. Parece-
me que, se examinarem bem, verão que não foi nem podia
ser, da forma que se apresentou, tal aurora. Mas seja o que
quiserem. Deus serviu-se disso para me fazer compreender que a
Sua justiça estava prestes a descarregar o golpe sobre as nações
culpadas e comecei, por isso, a pedir, com insistência, a Comunhão
reparadora nos primeiros sábados e a consagração da Rússia. O
meu fim era, não só conseguir misericórdia e perdão de todo o
Mundo, mas, em especial, para a Europa. Deus, na Sua infinita
misericórdia, foi-me fazendo sentir como esse terrível momento se
aproximava, e V. Ex.cia Rev.ma não ignora como, nas ocasiões
oportunas, o fui indicando. E digo ainda que a oração e penitência
que se tem feito em Portugal não aplacou ainda a Divina Justiça,
porque não tem sido acompanhada de contrição nem emenda.
Espero que a Jacinta interceda por nós no Céu.
Já disse, nos apontamentos que enviei sobre o livro «Jacinta
», que ela se impressionava muito com algumas coisas reveladas
no segredo. Assim era a vista do inferno, a desgraça de tantas
almas que para lá vão, a futura guerra, cujos horrores ela parecia
ter presentes. Faziam-na estremecer de pavor. Quando a via muito
pensativa, perguntava-lhe:
– Jacinta, em que pensas?
E não poucas vezes me respondia:
– Nessa guerra que há-de vir, em tanta gente que há-de morrer
e ir para o inferno. Que pena! Se deixassem de ofender a Deus,
nem vinha a guerra, nem iam para o inferno!

Às vezes, dizia-me também:
– Tenho pena de ti. O Francisco e eu vamos para o Céu e vais a
ficar cá sozinha! Pedia a Nossa Senhora para te levar também para o Céu, mas Ela quer que cá fiques mais algum tempo! Quando vier a guerra, não tenhas medo. No Céu, eu peço por ti.

 
Pouco tempo antes de ir para Lisboa, num desses momentos
(em) que ela parecia abatida pela saudade, disse-lhe:
– Não tenhas pena de eu não ir contigo. É pouco tempo; podes
passá-lo a pensar em Nossa Senhora, em Nosso Senhor e a
dizer muitas vezes essas palavras (de) que gostas tanto: Meu Deus,
eu Vos amo! Imaculado Coração de Maria! Doce Coração de Maria! etc.

– Isso sim! – respondeu com vivacidade – Não me cansarei
nunca de dizê-las até morrer! E, depois hei-de cantá-las muitas
vez no Céu!

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Jacinta vê o Santo Padre

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA
6. Jacinta vê o Santo Padre
Um dia, fomos passar as horas da sesta para junto do poço de
meus pais. A Jacinta sentou-se nas lajes do poço; o Francisco,
comigo, foi procurar o mel silvestre nas silvas dum silvado duma
ribanceira que aí havia. Passado um pouco de tempo, a Jacinta
chama por mim:
– Não viste o Santo Padre?
– Não!

– Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre em uma casa muito
grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara, a
chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-Ihe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por Ele.


Já disse como, um dia, dois Sacerdotes nos recomendaram a
oração pelo Santo Padre e nos explicaram quem era o Papa. A
Jacinta, depois, perguntou-me:
– É o mesmo que eu vi a chorar e de quem aquela Senhora
nos falou no segredo?

– É – Ihe respondi.
– Decerto aquela Senhora também o mostrou a estes Senhores
Padres! Vês? Eu não me enganei. É preciso rezar muito por Ele.

 
Em outra ocasião, fomos para a Lapa do Cabeço. Chegados
aí, prostrámo-nos por terra, a rezar as orações do Anjo. Passado
algum tempo, a Jacinta ergue-se e chama por mim:
– Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de
gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo
Padre em uma Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a
rezar? E tanta gente a rezar com Ele?

Passados alguns dias, perguntou-me:
– Posso dizer que vi o Santo Padre e toda aquela gente?
– Não. Não vês que isso faz parte do segredo? que por aí logo
se descobria?

– Está bem; então não digo nada.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-O Coração Imaculado de Maria

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA

5. O Coração Imaculado de Maria
Bem, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, parece-me ter já manifestado
a primeira parte do segredo.
A segunda refere-se à devoção do Imaculado Coração de
Maria.
Já disse, no segundo escrito, que Nossa Senhora, a 13 de Junho de 1917, me disse que nunca me deixaria e que Seu Imaculado
Coração seria o meu refúgio e o caminho que me conduziria
a Deus. Que foi ao dizer estas palavras que abriu as mãos,
fazendo-nos penetrar no peito o reflexo que delas expedia.
Parece-me que, em este dia, este reflexo teve por fim principal
infundir em nós um conhecimento e amor especial para com o
Coração Imaculado de Maria; assim como das outras duas vezes
o teve, me parece, a respeito de Deus e do mistério da Santíssima
Trindade. Desde esse dia, sentimos no coração um amor mais
ardente pelo Coração Imaculado de Maria. A Jacinta dizia-me, de
vez em quando:
– Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o
teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto?
Eu gosto tanto do Seu Coração! É tão bom!
 

É verdade que Jacinta, por causa da sua idade, não sabia plenamente o que
significava este pecado. Mas isso não quer dizer que ela, com a sua grande
intuição, não tenha compreendido a importância dele.
(14) O amor ao Coração Imaculado de Maria era, segundo Lúcia, como uma «virtude
infusa». Isto só se pode explicar por uma mística extraordinária que a ela
foi dada.
126
Depois que, em Julho, no segredo, como já deixo exposto, nos
disse que Deus queria estabelecer no Mundo a devoção a Seu
Imaculado Coração; que, para impedir a futura guerra, viria pedir a
consagração da Rússia a Seu Imaculado Coração e a Comunhão
reparadora nos primeiros sábados, falando disto entre nós, a Jacinta
dizia:
– Tenho tanta pena de não poder comungar em reparação
dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria!
Já disse também como a Jacinta escolheu, entre a ladainha
de jaculatórias que o Senhor Padre Cruz nos sugeriu, a de: Doce
Coração de Maria, sede a minha salvação! Às vezes, depois de a
dizer, acrescentava, com aquela simplicidade que Ihe era natural:
– Gosto tanto do Coração Imaculado de Maria! É o Coração
da nossa Mãezinha do Céu! Tu não gostas tanto de dizer muitas
vezes: Doce Coração de Maria! Imaculado Coração de Maria!? Eu gosto tanto, tanto!

Às vezes, andava a apanhar as flores do campo e a cantar
com uma música arranjada por ela no mesmo momento:
– Doce Coração de Maria, sede a minha salvação! Imaculado
Coração de Maria, converte os pecadores, livra as almas do inferno!

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Olhar retrospectivo de Lúcia

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA

4. Olhar retrospectivo de Lúcia
Aqui, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, me vem à mente uma reflexão.
Por vezes me têm perguntado se Nossa Senhora, em alguma
das aparições, nos indicou que classe de pecados ofendiam mais
a Deus, pois, segundo dizem, a Jacinta, em Lisboa, nomeou o da
carne. Talvez, penso eu agora, como era uma das perguntas
que às vezes me fazia a mim, lhe ocorresse fazê-la, em Lisboa, a
Nossa Senhora e que, então, lhe fosse indicado esse.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Forte impressão para a Jacinta

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA


3. Forte impressão para a Jacinta
Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo: disse já a V.
Ex.cia Rev.ma, em os apontamentos que enviei depois de ler o livro
«Jacinta», que ela se impressionava muito com algumas coisas
reveladas no segredo. Realmente, assim era. A vista do inferno
tinha-a horrorizado a tal ponto, que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, para conseguir livrar de lá algumas almas.
Bem; agora respondo já ao segundo ponto de interrogação
que, de várias partes, aqui me tem chegado.
Como é que a Jacinta, tão pequenina, se deixou possuir e
compreendeu um tal espírito de mortificação e penitência?
Parece-me que foi: primeiro, por uma graça especial que Deus,
por meio do Imaculado Coração de Maria, lhe quis conceder; segundo, olhando para o inferno e desgraça das almas que aí caem.
Algumas pessoas, mesmo piedosas, não querem falar às
crianças do inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou
em mostrá-lo a três e uma de 6 anos apenas e que Ele sabia se
havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, de susto
se definhar.
Com frequência se sentava no chão ou em alguma pedra e,
pensativa, começava a dizer:
– O inferno! o inferno! que pena eu tenho das almas que vão
para o inferno! E as pessoas lá vivas a arder como a lenha no fogo!

E meio trémula ajoelhava, de mãos postas, a rezar a oração
que Nossa Senhora nos tinha ensinado:
– Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai
as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.

Agora, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, já V. Ex.cia Rev.ma compreenderá por que a mim me ficou a impressão de que as últimas palavras desta oração se referiam às almas que se encontram em maior perigo ou mais iminente de condenação.
E permanecia assim, por grandes espaços de tempo, de joelhos,
repetindo a mesma oração. De vez em quando, chamava por
mim ou pelo irmão (como que acordando dum sono):
– Francisco, Francisco, vocês estão a rezar comigo? É preciso
rezar muito, para livrar as almas do inferno. Vão para lá tantas!
tantas!

Outras vezes, perguntava:
– Por que é que Nossa Senhora não mostra o inferno aos
pecadores? Se eles o vissem, já não pecavam, para não irem para
lá! Hás-de dizer àquela Senhora que mostre o inferno a toda aquela gente (referia-se aos que se encontravam na Cova da Iria, no momento da aparição). Verás como se convertem.

Depois, meio descontente, perguntava-me:
– Por que não disseste a Nossa Senhora que mostrasse o
inferno àquela gente?

– Esqueci-me – respondia.
– Também me não lembrei! – dizia com ar triste.
Às vezes, perguntava ainda:
– Que pecados são os que essa gente faz, para ir para o
inferno?

– Não sei. Talvez o pecado de não ir à Missa ao Domingo, de
roubar, de dizer palavras feias, rogar pragas, jurar.

– E só assim por uma palavra vão para o inferno?!
– Pois! É pecado!

– Que lhes custava estar calados e ir à Missa!? Que pena eu
tenho dos pecadores! Se eu pudesse mostrar-lhes o inferno!

Repentinamente, às vezes, agarrava-se a mim e dizia:
– Eu vou para o Céu; mas tu que ficas cá, se Nossa Senhora
te deixar, diz a toda a gente como é o inferno, para que não façam
mais pecados e não vão para lá.

Outras vezes, depois de estar um pouco de tempo a pensar,
dizia:
– Tanta gente a cair no inferno, tanta gente no inferno!
Para a tranquilizar dizia-lhe:
– Não tenhas medo; tu vais para o Céu.
– Pois vou – dizia com paz –, mas eu queria que toda aquela
gente para lá fosse também.

Quando ela, por mortificação, não queria comer, dizia-lhe:
– Jacinta! Anda, agora come.
– Não. Ofereço este sacrifício pelos pecadores que comem
demais.

Quando, já na doença, ia algum dia à Missa, dizia-lhe:
– Jacinta, não venhas; tu não podes. Hoje não é Domingo!
– Não importa. Vou por os pecadores que nem ao Domingo
vão.

Se calhava de ouvir algumas dessas palavras que alguma
gente parece fazer alarde de pronunciar, encobria a cara com as
mãos e dizia:
– Ó meu Deus! Esta gente não saberá que por dizer estas
coisas pode ir para o inferno? Perdoa-lhes, meu Jesus, e converte-
os. Decerto não sabem que, com isto, ofendem a Deus. Que
pena, meu Jesus! Eu rezo por eles.

E lá repetia a oração ensinada por Nossa Senhora:
– Ó meu Jesus, perdoai-nos, etc.


MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-O que é o segredo

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA
1. O que é o segredo
O que é o segredo?
Parece-me que o posso dizer, pois que do Céu tenho já a licença.
Os representantes de Deus na terra têm-me autorizado a
isso várias vezes e em várias cartas, uma das quais, julgo que
conserva V. Ex.cia Rev.ma, do Senhor Padre José Bernardo Gonçalves, na em que me manda escrever ao Santo Padre. Um dos pontos que me indica é a revelação do segredo. Algo disse; mas, para não alongar mais esse escrito que devia ser breve, limitei-me ao indispensável, deixando a Deus a oportunidade dum momento mais favorável.
Expus já, no segundo escrito, a dúvida que de 13 de Junho a
13 de Julho me atormentou e que nessa aparição tudo se desvaneceu.

2. Visão do inferno
Bem; o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais
vou revelar.
A primeira foi, pois, a vista do inferno!
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia
estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo, os demónios
e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras
ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio
levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com
nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair
das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio,
entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia
estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas
transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à
nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição)! Se assim
não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que
nos disse com bondade e tristeza:
– Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores;
para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção
a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser,
salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar.
Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI
começará outra pior. Quando virdes uma noite, alumiada por uma
luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá
de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da
fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir,
virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração
e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a
Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz .

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA -PREFÁCIO

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA
PREFÁCIO
J. M. J.
Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo
Em obediência à ordem que V. Ex.cia Rev.ma me dá, na carta de
26 de Julho (de) 1941, de pensar e apontar alguma coisa mais,
que da Jacinta me possa lembrar, pensei e pareceu-me que, por
essa ordem, Deus falava, e era chegado o momento de responder
a dois pontos de interrogação que várias vezes me têm sido enviados e aos quais tenho diferido a resposta.
Parece-me que seria do agrado de Deus e do Imaculado Coração
de Maria que no livro «Jacinta» se dedicasse um capítulo a
falar do inferno e outro do Imaculado Coração de Maria. V. Ex.cia
vai decerto achar esquisito e fora de jeito este parecer, mas ele
não é meu; e Deus fará ver, a V. Ex.cia Rev.ma, que aí vai a Sua
glória e o bem das almas.
Terei, para isso, que falar algo do segredo e responder ao primeiro
ponto de interrogação.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-TERCEIRA MEMÓRIA-Introdução

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
TERCEIRA MEMÓRIA
Introdução

As duas memórias anteriores, como vimos, tiveram, como motivo
ocasional, umas insinuações do Sr . Bispo de Leiria e do P.Fonseca.
Ainda desta vez, Lúcia não escreve por iniciativa própria. A ocasião apresentou-se assim: O livro «Jacinta», de Maio a Outubro de 1938, tivera duas edições. Aproximando-se o ano jubilar de 1942, pensou-se numa nova edição; para isso, uma vez mais se pensou que Lúcia podia contribuir de um modo definitivo.
O Sr. D. José anunciava a Lúcia uma visita do Dr. Galamba, para
que este lhe fizesse mais algumas perguntas sobre a vida de Jacinta.
Lúcia sente interiormente que, para explicar o que se passara com a vida espiritual de Jacinta, era necessário descobrir já as duas primeiras partes do segredo de Julho de 1917. Por isso, antes de completar os relatos das suas recordações sobre Jacinta, crê ser necessário redigir o referente a esses duas primeiras partes.
O Dr. Galamba não chegou a encontrar-se, nesta ocasião, com Lúcia.
Esta, porém, desde fins de Julho – data em que recebe a ordem do Sr. Bispo – , pensa já na redacção. Termina-a em 31 de Agosto. Imediatamente envia o escrito ao Sr. Bispo de Leiria. Além do que a Irmã Lúcia diz no prólogo deste escrito, é conveniente reproduzir aqui o que escreve em carta para o P. Gonçalves: «O Sr. Bispo escreveu-me anunciando-me um interrogatório do Dr. Galamba e mandou-me recordar tudo mais que me possa lembrar que tenha relação com a Jacinta, para uma nova edição que querem imprimir. Esta ordem caiu-me no fundo da alma como um raio de luz, dizendo-me que era chegado o momento de revelar as duas
primeiras partes do segredo e acrescentar à nova edição dois capítulos: um sobre o inferno, outro sobre o Imaculado Coração de Maria. Mas a repugnância em manifestá-lo faz-me duvidar. Os apontamentos estão tirados, mas duvido se os entrego ou se, antes, os meto no fogão. Não sei o que farei».
O «espírito» pois, com que a Irmã Lúcia escreve esta Memória é o
mesmo que nas anteriores: por um lado, uma imensa repugnância; por outro, uma obediência intocável, segura de que «aí vai a Sua glória e o bem das almas».

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA- Boa memória da Vidente

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA

3. Boa memória da Vidente
Talvez que alguém queira perguntar: Como é que a Irmã se
lembra de tudo isto? Como é, não sei. O nosso bom Deus, que
reparte os Seus dons como Lhe apraz, repartiu comigo este bocadinho de memória; e, por isso, Ele só sabe como é. Ademais, entre as coisas sobrenaturais e as naturais parece-me encontrar uma
diferença que é: quando falamos com uma simples criatura, vamos
como que esquecendo o que se vai dizendo; ao passo que
estas outras coisas, à maneira que as vamos vendo ou ouvindo,
vão-se gravando tão intimamente na nossa alma, que não é fácil
esquecê-las.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA-Poder atractivo de Lúcia

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA
2. Poder atractivo de Lúcia
Poderá talvez parecer, neste escrito, que na minha terra não
encontrava amizade ou carinho em pessoa alguma. Não é assim.
Havia uma porçãozinha escolhida do redil do Senhor que mostrava
por mim uma simpatia única: eram as criancinhas. Corriam para
junto de mim numa alegria doida. E, quando sabiam que eu
pastoreava o meu rebanho cerca da nossa pequena aldeia, a grupos
lá iam ter, para passarem o dia comigo. Minha mãe costumava
dizer:
– Não sei que atractivo possas ter; as crianças correm para
junto de ti como se fossem para uma festa!

Eu é que muitas vezes não me sentia bem em meio de tanta
grita e, por isso, procurava ocultar-me.
O mesmo se passou com as minhas companheiras em Vilar e,
quase me atrevia a dizer, me passa agora com as minhas Irmãs
em religião. Há alguns anos atrás, me dizia a Madre Mestra, agora
Rev.ma Madre Provincial :
– A Irmã tem uma tal influência sobre as Irmãs que, se quiser,
Ihes pode fazer muito bem.

E, há pouco, me dizia a Rev.ma Madre Superiora, em Pontevedra:
– Em parte, a Irmã é responsável, diante de Nosso Senhor,
do estado de fervor ou de negligência das Irmãs, na observância,
porque o fervor se aumenta ou se esfria nos recreios; e as Irmãs
fazem os recreios que a Irmã fizer. Por tal e tais conversas que a
Irmã suscitou no recreio, tal e tal Irmã obteve um conhecimento
mais claro da regra e resolveu-se a observá-la com mais exactidão.
Que será isto? Não sei; talvez mais uma moeda que o Senhor
quis confiar-me, da qual me pedirá contas. Oxalá eu saiba negociar
com ela, para Lha restituir mil vezes multiplicada!

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA-Ainda alguns pormenores acerca da Jacinta

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA

1. Ainda alguns pormenores acerca da Jacinta
P.S. – Esqueci-me de dizer que a Jacinta, ao ir para os hospitais
de Vila Nova de Ourém e Lisboa, sabia que não ia para se
curar, mas sim para sofrer. Muito antes de ninguém falar em ela
entrar no Hospital de Vila Nova de Ourém, ela disse, um dia:
– Nossa Senhora quer que eu vá para dois hospitais; mas não
é para me curar, é para sofrer mais por amor de Nosso Senhor e
pelos pecadores.

As palavras exactas de Nossa Senhora, nestas aparições a
ela só, não as sei, porque nunca Ihe perguntei. Limitava-me a ouvir
apenas estas frases soltas que ela me dizia.
Neste escrito, procurei não repetir o que já escrevi no outro
anterior, para não o tornar tão extenso.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA -EPÍLOGO

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA
EPÍLOGO
Julgo, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, ter acabado de colher a
mais bela flor e o mais delicado fruto do meu pequenino jardim,
para agora o ir depor nas mãos misericordiosas do nosso bom
Deus, representado por V. Ex.cia Rev.ma, rogando-Lhe que o faça
frutificar numa abundante colheita de almas para a vida eterna. E
já que o nosso bom Deus se compraz na humilde obediência da
última das suas criaturas, termino com as palavras d’Aquela que
Ele, na Sua infinita misericórdia, me deu por Mãe, Protectora e
Modelo, com as quais também comecei: «Eis aqui a escrava do
Senhor»! Que Ele continue a servir-se dela, como Lhe aprouver!

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA-Despedida de Fátima

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA
10. Despedida de Fátima
Marcou-se, por fim, o dia da partida. Na véspera, fui, pois, com
o coração esmagado de saudades, despedir-me de todos os nossos
terrenos, bem certa de que era a última vez que os pisava: do
Cabeço, da Rocha, dos Valinhos, da Igreja Paroquial, onde o bom
Deus tinha começado a obra da Sua misericórdia, e do Cemitério,
onde deixava os restos mortais do meu querido pai e do Francisco,
que ainda não tinha podido esquecer. Do nosso poço despedi-me
já alumiada pelo pálido clarão da lua, e da velha eira, onde tantas
vezes tinha passado longas horas, contemplando o lindo Céu estrelado e as maravilhas do nascer e pôr do sol, que por vezes me
encantava, fazendo brilhar os seus raios nas gotas de orvalho que
pela manhã cobriam as montanhas, como se fossem pérolas e, à
tarde, os flocos de neve, quando esta caía durante o dia, pendentes
dos pinheiros, que faziam lembrar as belezas do Paraíso.
Sem me despedir de ninguém, no dia seguinte, às duas da
manhã, acompanhada de minha mãe e dum pobre trabalhador que
vinha para Leiria, chamado Manuel Correia, pus-me a caminho,
levando inviolável o meu segredo. Passámos pela Cova da Iria,
para aí fazer as minhas últimas despedidas. Rezei, aí, pela última
vez, o meu Rosário; e, enquanto avistei o local, fui-me voltando
para trás, como que a dizer-lhe o meu último adeus.
Chegámos a Leiria, aí pelas nove da manhã. Lá me encontrei
com a Senhora D. Filomena Miranda, mais tarde minha madrinha
de Crisma, encarregada por V. Ex.cia Rev.ma para me acompanhar.
O comboio partia às 2 da tarde e lá estava eu, na estação, a dar a
minha pobre mãe o meu abraço de despedida, deixando-a mergulhada em abundantes lágrimas de saudade. O comboio partiu e, com ele, o meu pobre coração mergulhado em um mar de saudades e recordações que me era impossível esquecer.


Nota: Lúcia deixou Aljustrel na madrugada de 16 de Junho de 1921 e chegou a Leiria algumas horas depois. De lá continuou a viagem até ao colégio do Porto, onde chegou na manhã seguinte.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA-Primeiro encontro com o Bispo

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA
9. Primeiro encontro com o Bispo
Por este tempo, V. Ex.cia Rev.ma entrava em Leiria (37) e o nosso
bom Deus confiava, aos seus cuidados, um pobre rebanho há largos anos sem Pastor. Não faltou quem julgasse assustar-me com
a chegada de V. Ex.cia Rev.ma, como já doutra vez tinham feito com um venerável Sacerdote, dizendo que V. Ex.cia sabia tudo, que adivinhava e penetrava no íntimo das consciências e que, agora, iria
descobrir todas as minhas intrujices. Longe de me assustar, ansiava
por Ihe falar e pensava: Se é certo que sabe tudo, sabe que falo
verdade.
Assim, logo que uma boa senhora de Leiria se ofereceu para
me levar junto de V. Ex.cia Rev.ma, aceitei, gostosa, a proposta. Lá
fui, na expectativa do feliz momento. Chegou, enfim, esse dia. E ao
chegar ao Paço, mandaram-me entrar, com essa senhora, em uma
sala e esperar um pouco. Veio, passados alguns momentos, o
Secretário (38) de V. Ex.cia Rev.ma que falou amavelmente com a
Senhora D. Gilda, que me acompanhava, fazendo-me, de vez em
quando, algumas perguntas. Como já me tinha confessado duas
vezes a Sua Rev.cia, já o conhecia; e, por isso, a sua conversação
foi-me agradável.
Passado um pouco, veio o Senhor Dr. Marques dos Santo, com os seus sapatos de fivela e envolvido na sua grande capa.
Era a primeira vez que eu assim via vestido um Sacerdote e, por
isso, chamou-me mais a atenção. Começou, pois, a desenvolver o
seu reportório de perguntas que parecia não terem fim. De vez em
quando ria-se, com um ar de troça das minhas respostas e o momento de falar com o Senhor Bispo não havia maneira de chegar.
Por fim, veio de novo o Secretário de V. Ex.cia dizer à senhora que
me acompanhava que, quando o Senhor Bispo chegasse, que se
desculpasse, dizendo que tinha que ir a um recado, e que se retirasse, porque, dizia Sua Rev.cia, pode ser que Sua Ex.cia Ihe queira alguma coisa em particular. Ao ouvir este recado, exultei de alegria e pensei: O Senhor Bispo, como sabe tudo, não me fará muitas perguntas e está só comigo; mas que bom!
A boa senhora soube bem fazer a parte, quando V. Ex.cia Rev.ma
chegou; e, assim, tive a felicidade de falar a sós com V. Ex.cia. O
que em essa entrevista se passou não vou agora descrevê-lo, porque
V. Ex.cia Rev.ma decerto o recorda melhor do que eu. Na verdade,
quando vos vi, Ex.mo e Rev.mo Senhor, receber-me com tanta bondade, sem me fazer a mínima pergunta curiosa ou inútil, interessando-vos apenas pelo bem da minha alma e prontificando-vos a tomar conta da pobre ovelhinha que o Senhor acabava de vos confiar, fiquei, mais do que nunca, crente que V. Ex.cia Rev.ma tudo sabia; e não hesitei um momento em me abandonar nas vossas mãos. As condições impostas por V. Ex.cia Rev.ma para o conseguir, para o meu natural, eram fáceis: guardar perfeito segredo de tudo que V. Ex.cia Rev.ma me tinha dito e ser boa. Lá me fui guardando para mim o meu segredo, até ao dia em (que) V. Ex.cia Rev.ma mandou
pedir o consentimento da minha mãe.

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA-Também a Lúcia adoece

MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-SEGUNDA MEMÓRIA
8. Também a Lúcia adoece
Várias pessoas que aí iam, de fora, ao verem-me com uma
cara amarelenta e meia anémica, pediam a minha mãe para me
deixar ir uns dias para suas casas, dizendo que a mudança de
ares me fazia bem. Com este intento, minha mãe dava o seu consentimento e lá me levavam, ora para umas partes, ora para outras.
Nestas viagens nem sempre encontrava estima e carinho. Ao
lado das pessoas que me admiravam e julgavam santa, havia sempre outras que me vituperavam e chamavam hipócrita, visionária e feiticeira. Era o nosso bom Deus a deitar o sal na água, para que ela se não corrompesse. E assim, graças a esta Divina Providência, passei pelo fogo sem me queimar, nem chegar a conhecer aquele bichinho da vaidade que tudo costuma carcomer. Nestas ocasiões, eu costumava pensar: Todos se enganam: nem sou uma santa, como alguns dizem, nem uma mentirosa, como dizem outros; só Deus sabe o que sou.
Ao voltar, corria junto da Jacinta que me dizia:
– Olha, não voltes a ir. Já tinha tantas saudades tuas! Desde
que foste embora, não falei com ninguém; com os outros não sei
falar.

Chegou, por fim, o tempo de ela partir para Lisboa. Já escrevi
a nossa despedida, por isso não a repito aqui. Que tristeza que eu
senti ao ver-me só! Em tão pouco tempo, o nosso bom Deus levava-me para o Céu o meu querido pai, em seguida o Francisco e
agora a Jacinta que eu não tornaria a ver neste mundo. Logo que
pude, retirei-me para o Cabeço; internei-me na caverna do rochedo,
para aí, a sós com Deus, desafogar a minha dor e derramar,
com abundância, as lágrimas do meu pranto. Ao descer a encosta,
tudo me recordava os meus queridos companheiros: pedras onde
tantas vezes nos havíamos sentado; as flores que eu já não colhia,
por não ter a quem as levar; os Valinhos onde, juntos, tínhamos
gozado as delícias do Paraíso! Como que duvidando da realidade
e meia abstracta, entrei, um dia, em casa de minha tia, dirigindo-me ao quarto da Jacinta, chamando por ela. Sua irmãzinha Teresa,
ao ver-me assim, embargou-me os passos, dizendo que a Jacinta
já ali não estava!
Passado pouco tempo, chegou a notícia de que havia voado
ao Céu. Trouxeram, então, o seu cadáver para Vila Nova de
Ourém. Minha tia lá me levou um dia, junto dos restos mortais da
sua filhinha, com a esperança de, assim, me distrair. Mas, por largo
tempo, a minha tristeza parecia aumentar cada vez mais. Quando
encontrava o cemitério aberto, sentava-me junto da campa do Francisco ou de meu pai e aí passava longas horas.
Graças (a Deus) que, passado algum tempo, minha mãe resolveu
ir a Lisboa e levar-me consigo. Por intermédio do Senhor
Dr. Formigão, uma piedosa senhora recebe-nos em sua casa
e ofereceu-se para pagar a minha educação em um colégio, se eu
quisesse ficar. Minha mãe e eu aceitámos, reconhecidas, a generosa
oferta da caridosa senhora, de nome D. Assunção Avelar.
Minha mãe, depois de haver consultado os médicos e ouvir que
necessitava de uma operação aos rins e espinha, mas que eles
não se responsabilizavam pela sua vida, em vistas de ter também
uma lesão cardíaca, voltou para casa, deixando-me entregue aos
cuidados dessa senhora. Quando já estava com tudo pronto e o
dia marcado para entrar no colégio disseram que o Governo tinha
sabido que eu estava em Lisboa e que me procurava. Levaram-me, então, para Santarém, para casa do Senhor Dr. Formigão,
onde estive alguns dias escondida, sem, nem sequer, me deixarem
ir à Missa. E, por fim, a irmã de Sua Rev.cia veio-me trazer a
casa de minha mãe, prometendo arranjarem a minha entrada em
um colégio que, então, tinham as Religiosas Doroteias em Espanha;
e que, logo que estivesse tudo arranjado, me iriam buscar. Com
todas estas coisas, distraí-me alguma coisa, e aquela tristeza
acabrunhadora foi-me passando.