MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Graças alcançadas pela Jacinta
Havia no nosso lugar uma mulher que nos insultava sempre
que nos encontrava. Encontrámo-la, um dia, quando saía duma
taberna, e a pobre, como não estava em si, não se contentou, dessa
vez, só com insultar-nos. Quando terminou o seu trabalho, a
Jacinta diz-me:
– Temos que pedir a Nossa Senhora e oferecer-Lhe sacrifícios
pela conversão desta mulher. Diz tantos pecados que, se não se
confessa, vai para o inferno.
Passados alguns dias, corríamos em frente da porta da casa
desta mulher. De repente, a Jacinta pára no meio da sua carreira e
voltando-se para trás pergunta:
– Olha, é amanhã que vamos ver aquela Senhora?
– É sim.
– Então não brinquemos mais. Fazemos este sacrifício pela
conversão dos pecadores.
E sem pensar que alguém a podia ver, levanta as mãozinhas
e os olhos ao Céu e faz o oferecimento. A mulherzinha espreitava
por um postigo da casa e depois, dizia ela a minha mãe, que a
tinha impressionado tanto aquela acção da Jacinta, que não necessitava doutra prova para crer na realidade dos factos. E daí
para o futuro, não só nos não insultava, mas pedia-nos continuamente para pedirmos por ela a Nossa Senhora, que Ihe perdoasse os seus pecados.
Encontrou-nos um dia uma pobre mulher e, chorando, ajoelhou-se diante da Jacinta a pedir-lhe que Ihe obtivesse de Nossa Senhora a cura duma terrível doença. A Jacinta, ao ver de joelhos, diante de si, uma mulher, afligiu-se e pegou-lhe nas mãos trémulas para a levantar. Mas vendo que não era capaz, ajoelhou também e rezou com a mulher três Ave-Marias; depois, pediu-lhe que se levantasse, que Nossa Senhora havia de curá-la. E não deixoumais de rezar todos os dias por ela, até que, passado algum tempo, tornou a aparecer para agradecer a Nossa Senhora a sua cura.
Outra vez, era um soldado que chorava como uma criança.
Tinha recebido ordem de partir para a guerra e deixava a sua mulher em cama, doente, e três filhinhos. Ele pedia ou a cura da mulher ou a revogação da ordem. A Jacinta convidou-o a rezar com ela o Terço. Depois disse-lhe:
– Não chore. Nossa Senhora é tão boa! Com certeza faz-Ihe a
graça que Ihe pede.
E não esqueceu mais o seu soldado. No fim do Terço rezava
sempre uma Ave-Maria pelo soldado. Passados alguns meses,
apareceu com sua esposa e seus três filhinhos para agradecer a
Nossa Senhora as duas graças recebidas. Por causa duma febre
que Ihe tinha dado na véspera de partir, tinha sido livre do serviço
militar e sua esposa, dizia ele, tinha sido curada por milagre de
Nossa Senhora.
Novos sacrifícios
Disseram um dia que vinha a interrogar-nos um Sacerdote que
era santo e que adivinhava o que se passava no íntimo de cada
um e que, por isso, ia a descobrir se sim ou não dizíamos a verdade.
A Jacinta dizia, então, cheia de alegria:
– Quando virá esse Senhor Padre que adivinha? Se adivinha,
há-de saber muito bem que falamos verdade.
Brincávamos, um dia, sobre o poço já mencionado. A mãe da
Jacinta tinha ali uma vinha pegada. Cortou alguns cachos e veio
trazer-no-los, para que os comêssemos. Mas a Jacinta não esquecia
nunca os seus pecadores.
– Não os comemos – dizia ela – e oferecemos este sacrifício
pelos pecadores.
Depois, correu a levar as uvas às outras crianças que brincavam
na rua. À volta, vinha radiante de alegria; tinha encontrado
os nossos antigos pobrezinhos e tinha-lhas dado a eles.
Outra vez, minha tia foi chamar-nos para comermos uns figos
que tinha trazido para casa e que na realidade abriam o apetite a
qualquer. A Jacinta sentou-se connosco, satisfeita, ao lado da cesta
e pega no primeiro para começar a comer; mas, de repente,
lembra-se e diz:
– É verdade! Ainda hoje não fizemos nenhum sacrifício pelos
pecadores! Temos que fazer este.
Põe o figo na cesta, faz o oferecimento e lá deixámos os figos,
para converter os pecadores. A Jacinta repetia com frequência
estes sacrifícios, mas não me detenho a contar mais; se não, nunca
acabo.
Este blogue é tradicional e também fiel á verdadeira Religião Una, Católica, Apostólica, Romana e tem por objectivo a divulgação da Missa Tridentina em Portugal e no Brasil,e preservar a sua Doutrina original. Dedico este blog á Virgem Santíssima, ao Sagrado Coração de Jesus,a São José e as Almas do Purgatório,como reconhecimento e gratidão por me terem tirado do Paganismo. Evangelização Tradicional e Apostolado de Oração no Porto.
Jesus Crucified
Jesus Christ have mercy on us
Holy Tridentine Mass - Santa Missa Tridentina.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-O incómodo dos interrogatórios
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
O incómodo dos interrogatórios
Minha mãe, cansada de ver minha irmã perder tempo para ir
continuamente chamar-me e ficar no meu lugar com o rebanho,
resolveu vendê-lo; e, de acordo com minha tia, mandarem-nos à escola. A Jacinta gostava de, durante o recreio, ir visitar o Santíssimo; mas, dizia ela:
– Parece que adivinham. Logo que a gente entra na Igreja, é
tanta gente a fazer-nos perguntas! Eu gostava de estar muito tempo
sozinha, a falar com Jesus escondido; mas nunca nos deixam!
Na verdade, aquela gentinha simples das aldeias não nos deixava. Contavam, com toda a simplicidade, todas as suas necessidades
e aflições. A Jacinta mostrava pena, em especial quando se tratava dalgum pecador. E, então, dizia:
– Temos que rezar e oferecer sacrifícios a Nosso Senhor, para
que o converta e não vá para o inferno, coitadinho!
Vem agora aqui a propósito contar uma passagem que mostra
quanto a Jacinta procurava fugir às pessoas que a procuravam.
Íamos um dia a caminho de Fátima, quando, já perto da estrada,
vemos que descem dum automóvel um grupo de senhoras e alguns
cavalheiros. Não duvidámos um momento que nos procuravam.
Fugir, já não podíamos, sem ser notadas. Vamos para diante, na
esperança de passar sem ser conhecidas. Ao chegarem junto de
nós, as senhoras perguntam se conhecemos os pastorinhos a quem
apareceu Nossa Senhora. Respondemos que sim. Se sabíamos
onde moravam. Demos-Ihes todas as indicações precisas para ir
lá ter e corremos a ocultar-nos nuns campos em um silvado. A
Jacinta, contente com o bom resultado da experiência, dizia:
– Havemos de fazer assim sempre que não nos conheçam.
O santo Padre Cruz
Foi também um dia, por sua vez, o Senhor Dr. Cruz, de Lisboa, a interrogar-nos. Depois do seu interrogatório, pediu-nos para
Ihe irmos mostrar o sítio onde Nossa Senhora nos tinha aparecido.
Pelo caminho ia uma de cada lado de sua Rev.cia, que ia montado
em um jumento tão pequeno que quase arrastava com os pés pelo
chão. Foi-nos ensinando uma ladainha de jaculatórias, das quais a
Jacinta escolheu duas que depois não cessava de repetir e eram:
Ó meu Jesus, eu Vos amo. Doce Coração de Maria, sede a minha
salvação.
Um dia, na sua doença, disse-me:
– Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo! Quando Lh’o digo
muitas vezes, parece que tenho lume no peito, mas não me queimo.
Outra vez dizia:
– Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca
me canso de Lhes dizer que Os amo.
Nota:Isso aconteceu cerca de um ano depois das Aparições, portanto, em 1918 ou 1919.
P.e Francisco Cruz, S.J. (1858-1948), Servo de Deus, cujo processo de beatificação
está a decorrer.
O incómodo dos interrogatórios
Minha mãe, cansada de ver minha irmã perder tempo para ir
continuamente chamar-me e ficar no meu lugar com o rebanho,
resolveu vendê-lo; e, de acordo com minha tia, mandarem-nos à escola. A Jacinta gostava de, durante o recreio, ir visitar o Santíssimo; mas, dizia ela:
– Parece que adivinham. Logo que a gente entra na Igreja, é
tanta gente a fazer-nos perguntas! Eu gostava de estar muito tempo
sozinha, a falar com Jesus escondido; mas nunca nos deixam!
Na verdade, aquela gentinha simples das aldeias não nos deixava. Contavam, com toda a simplicidade, todas as suas necessidades
e aflições. A Jacinta mostrava pena, em especial quando se tratava dalgum pecador. E, então, dizia:
– Temos que rezar e oferecer sacrifícios a Nosso Senhor, para
que o converta e não vá para o inferno, coitadinho!
Vem agora aqui a propósito contar uma passagem que mostra
quanto a Jacinta procurava fugir às pessoas que a procuravam.
Íamos um dia a caminho de Fátima, quando, já perto da estrada,
vemos que descem dum automóvel um grupo de senhoras e alguns
cavalheiros. Não duvidámos um momento que nos procuravam.
Fugir, já não podíamos, sem ser notadas. Vamos para diante, na
esperança de passar sem ser conhecidas. Ao chegarem junto de
nós, as senhoras perguntam se conhecemos os pastorinhos a quem
apareceu Nossa Senhora. Respondemos que sim. Se sabíamos
onde moravam. Demos-Ihes todas as indicações precisas para ir
lá ter e corremos a ocultar-nos nuns campos em um silvado. A
Jacinta, contente com o bom resultado da experiência, dizia:
– Havemos de fazer assim sempre que não nos conheçam.
O santo Padre Cruz
Foi também um dia, por sua vez, o Senhor Dr. Cruz, de Lisboa, a interrogar-nos. Depois do seu interrogatório, pediu-nos para
Ihe irmos mostrar o sítio onde Nossa Senhora nos tinha aparecido.
Pelo caminho ia uma de cada lado de sua Rev.cia, que ia montado
em um jumento tão pequeno que quase arrastava com os pés pelo
chão. Foi-nos ensinando uma ladainha de jaculatórias, das quais a
Jacinta escolheu duas que depois não cessava de repetir e eram:
Ó meu Jesus, eu Vos amo. Doce Coração de Maria, sede a minha
salvação.
Um dia, na sua doença, disse-me:
– Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo! Quando Lh’o digo
muitas vezes, parece que tenho lume no peito, mas não me queimo.
Outra vez dizia:
– Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca
me canso de Lhes dizer que Os amo.
Nota:Isso aconteceu cerca de um ano depois das Aparições, portanto, em 1918 ou 1919.
P.e Francisco Cruz, S.J. (1858-1948), Servo de Deus, cujo processo de beatificação
está a decorrer.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-II. DEPOIS DAS APARIÇÕES
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
II. DEPOIS DAS APARIÇÕES
Orações e sacrifícios no Cabeço
Minha tia, cansada de ter que mandar continuamente buscar
os seus filhinhos, para satisfazer o desejo de pessoas que pediam
para Ihes falar, mandou pastorear o seu rebanho o seu filhinho
João. À Jacinta custou muito esta ordem, por dois motivos: por
ter que falar a toda a gente que a procurava e, como ela dizia, por
não poder andar todo o dia junto de mim. Teve, no entanto, que
resignar-se. E para se ocultar das pessoas que a buscavam, ia
esconder-se, com seu irmãozinho, na caverna dum rochedo
que fica na encosta dum monte que está em frente do nosso lugar
e que tem no cimo um moinho de vento. O rochedo fica na encosta
do lado do nascente; e é tão bem feita a loca, que os resguardava
perfeitamente da chuva e dos ardores do sol. Além disso, fica encoberta por numerosas oliveiras e carvalhos. Quantas orações e
sacrifícios ela aí ofereceu ao nosso bom Deus!
Na encosta desse monte havia muitas e variadas flores. Entre
elas, havia inúmeros lírios, de que ela gostava muito. E sempre
que à noite me ia esperar ao caminho, me trazia um lírio ou, na
falta deste, uma outra flor qualquer. E era para ela uma festa chegar
junto de mim, desfolhá-la e atirar-me com as pétalas.
Minha mãe contentou-se, por então, a marcar-me as pastagens,
para saber onde andava, quando fosse preciso mandar-me
chamar. Quando estas eram perto, avisava os meus companheiros
que logo lá iam ter. A Jacinta corria até chegar perto de mim.
Depois, cansada, sentava-se e chamava por mim; e não se calava
enquanto não Ihe respondia e corria ao seu encontro.
II. DEPOIS DAS APARIÇÕES
Orações e sacrifícios no Cabeço
Minha tia, cansada de ter que mandar continuamente buscar
os seus filhinhos, para satisfazer o desejo de pessoas que pediam
para Ihes falar, mandou pastorear o seu rebanho o seu filhinho
João. À Jacinta custou muito esta ordem, por dois motivos: por
ter que falar a toda a gente que a procurava e, como ela dizia, por
não poder andar todo o dia junto de mim. Teve, no entanto, que
resignar-se. E para se ocultar das pessoas que a buscavam, ia
esconder-se, com seu irmãozinho, na caverna dum rochedo
que fica na encosta dum monte que está em frente do nosso lugar
e que tem no cimo um moinho de vento. O rochedo fica na encosta
do lado do nascente; e é tão bem feita a loca, que os resguardava
perfeitamente da chuva e dos ardores do sol. Além disso, fica encoberta por numerosas oliveiras e carvalhos. Quantas orações e
sacrifícios ela aí ofereceu ao nosso bom Deus!
Na encosta desse monte havia muitas e variadas flores. Entre
elas, havia inúmeros lírios, de que ela gostava muito. E sempre
que à noite me ia esperar ao caminho, me trazia um lírio ou, na
falta deste, uma outra flor qualquer. E era para ela uma festa chegar
junto de mim, desfolhá-la e atirar-me com as pétalas.
Minha mãe contentou-se, por então, a marcar-me as pastagens,
para saber onde andava, quando fosse preciso mandar-me
chamar. Quando estas eram perto, avisava os meus companheiros
que logo lá iam ter. A Jacinta corria até chegar perto de mim.
Depois, cansada, sentava-se e chamava por mim; e não se calava
enquanto não Ihe respondia e corria ao seu encontro.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-Na cadeia de Ourém
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Na cadeia de Ourém
Quando, passado algum tempo, estivemos presos, a Jacinta,
o que mais Ihe custava era o abandono dos pais; e dizia, com as
lágrimas a correrem-lhe pelas faces:
– Nem os teus pais nem os meus nos vieram ver. Não se importaram mais de nós!
– Não chores – Ihe disse o Francisco. – Oferecemos a Jesus,
pelos pecadores.
E levantando os olhos e mãozinhas ao Céu, fez ele o oferecimento:
– Ó meu Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores.
A Jacinta acrescentou:
– É também pelo Santo Padre e em reparação dos pecados
cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.
Quando, depois de nos terem separado, voltaram a juntar-nos
em uma sala da cadeia, dizendo que dentro em pouco nos vinham
buscar para nos fritar, a Jacinta afastou-se para junto duma janela
que dava para a feira do gado. Julguei, a princípio, que se estaria a
distrair com as vistas; mas não tardei a reconhecer que chorava.
Fui buscá-la para junto de mim e perguntei-Ihe por que chorava:
– Porque – respondeu – vamos morrer sem tornar a ver nem
os nossos pais, nem as nossas mães!
E com as lágrimas as correr-lhe pelas faces:
– Eu queria sequer, ver a minha mãe!
– Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão
dos pecadores?
– Quero, quero.
E com as lágrimas a banhar-lhe as faces, as mãos e os olhos
levantados ao Céu, faz o oferecimento:
– Ó meu Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores,
pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria.
Os presos que presenciaram esta cena quiseram consolar-nos:
– Mas vocês – diziam eles – digam ao Senhor Administrador
lá esse segredo. Que Ihes importa que essa Senhora não queira?
– Isso não! – respondeu a Jacinta com vivacidade. – Antes
quero morrer.
Terço na prisão
Determinámos, então, rezar o nosso Terço. A Jacinta tira uma
medalha que tinha ao pescoço, pede a um preso que Ihe pendure
em um prego que havia na parede e, de joelhos diante dessa medalha, começamos a rezar. Os presos rezaram connosco, se é que
sabiam rezar; pelo menos estiveram de joelhos. Terminado o Terço,
a Jacinta voltou para junto da janela a chorar.
– Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso
Senhor? – Ihe perguntei.
– Quero; mas lembro-me de minha mãe e choro sem querer.
Então, como a Santíssima Virgem nos tinha dito que oferecêssemos
também as nossas orações e sacrifícios para reparar os
pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria, quisemos combinar a oferecer cada um pela sua intenção. Oferecia um pelos pecadores, outro pelo Santo Padre e outro em reparação pelos pecados contra o Imaculado Coração de Maria. Feita a combinação, disse à Jacinta que escolhesse qual a intenção por que queria oferecer.
– Eu ofereço por todas, porque gosto muito de todas.
Afeiçãozinha pelo baile
Havia entre os presos um que tocava harmónio (harmónica).
Começaram, então, para distrair-nos, a tocar e a cantar.
Perguntaram-nos se não sabíamos bailar. Dissemos que sabíamos
o fandango e o vira. A Jacinta foi então o par dum pobre ladrão que, vendo-a tão pequenina, terminou por bailar com ela ao colo! Oxalá Nossa Senhora tenha tido compaixão da sua alma e o
tenha convertido.
Agora dirá V. Ex.cia: Que belas disposições para o martírio!... É
verdade! Mas éramos crianças; não pensávamos mais. A Jacinta
tinha para o baile uma afeiçãozinha especial e muita arte. Lembro-
-me que chorava, um dia, por um seu irmão que andava na guerra
e que julgavam morto no campo da batalha. Para a distrair, com
dois seus irmãos, arranjei um baile; e a pobre criança andava a
bailar e a limpar as lágrimas que Ihe corriam pelas faces. Não
obstante esta afeiçãozinha que tinha pelo baile, que bastava às
vezes ouvir qualquer instrumento que tocavam os pastores para
começar a bailar, mesmo sozinha, quando se aproximou o S. João
e o Carnaval, disse-me:
– Eu, agora, já não bailo mais.
– E porquê?
– Porque quero oferecer este sacrifício a Nosso Senhor. E como
éramos as cabeças, na brincadeira, entre as crianças, acabaram
os bailes que se costumavam fazer nestas ocasiões.
Na cadeia de Ourém
Quando, passado algum tempo, estivemos presos, a Jacinta,
o que mais Ihe custava era o abandono dos pais; e dizia, com as
lágrimas a correrem-lhe pelas faces:
– Nem os teus pais nem os meus nos vieram ver. Não se importaram mais de nós!
– Não chores – Ihe disse o Francisco. – Oferecemos a Jesus,
pelos pecadores.
E levantando os olhos e mãozinhas ao Céu, fez ele o oferecimento:
– Ó meu Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores.
A Jacinta acrescentou:
– É também pelo Santo Padre e em reparação dos pecados
cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.
Quando, depois de nos terem separado, voltaram a juntar-nos
em uma sala da cadeia, dizendo que dentro em pouco nos vinham
buscar para nos fritar, a Jacinta afastou-se para junto duma janela
que dava para a feira do gado. Julguei, a princípio, que se estaria a
distrair com as vistas; mas não tardei a reconhecer que chorava.
Fui buscá-la para junto de mim e perguntei-Ihe por que chorava:
– Porque – respondeu – vamos morrer sem tornar a ver nem
os nossos pais, nem as nossas mães!
E com as lágrimas as correr-lhe pelas faces:
– Eu queria sequer, ver a minha mãe!
– Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão
dos pecadores?
– Quero, quero.
E com as lágrimas a banhar-lhe as faces, as mãos e os olhos
levantados ao Céu, faz o oferecimento:
– Ó meu Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores,
pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria.
Os presos que presenciaram esta cena quiseram consolar-nos:
– Mas vocês – diziam eles – digam ao Senhor Administrador
lá esse segredo. Que Ihes importa que essa Senhora não queira?
– Isso não! – respondeu a Jacinta com vivacidade. – Antes
quero morrer.
Terço na prisão
Determinámos, então, rezar o nosso Terço. A Jacinta tira uma
medalha que tinha ao pescoço, pede a um preso que Ihe pendure
em um prego que havia na parede e, de joelhos diante dessa medalha, começamos a rezar. Os presos rezaram connosco, se é que
sabiam rezar; pelo menos estiveram de joelhos. Terminado o Terço,
a Jacinta voltou para junto da janela a chorar.
– Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso
Senhor? – Ihe perguntei.
– Quero; mas lembro-me de minha mãe e choro sem querer.
Então, como a Santíssima Virgem nos tinha dito que oferecêssemos
também as nossas orações e sacrifícios para reparar os
pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria, quisemos combinar a oferecer cada um pela sua intenção. Oferecia um pelos pecadores, outro pelo Santo Padre e outro em reparação pelos pecados contra o Imaculado Coração de Maria. Feita a combinação, disse à Jacinta que escolhesse qual a intenção por que queria oferecer.
– Eu ofereço por todas, porque gosto muito de todas.
Afeiçãozinha pelo baile
Havia entre os presos um que tocava harmónio (harmónica).
Começaram, então, para distrair-nos, a tocar e a cantar.
Perguntaram-nos se não sabíamos bailar. Dissemos que sabíamos
o fandango e o vira. A Jacinta foi então o par dum pobre ladrão que, vendo-a tão pequenina, terminou por bailar com ela ao colo! Oxalá Nossa Senhora tenha tido compaixão da sua alma e o
tenha convertido.
Agora dirá V. Ex.cia: Que belas disposições para o martírio!... É
verdade! Mas éramos crianças; não pensávamos mais. A Jacinta
tinha para o baile uma afeiçãozinha especial e muita arte. Lembro-
-me que chorava, um dia, por um seu irmão que andava na guerra
e que julgavam morto no campo da batalha. Para a distrair, com
dois seus irmãos, arranjei um baile; e a pobre criança andava a
bailar e a limpar as lágrimas que Ihe corriam pelas faces. Não
obstante esta afeiçãozinha que tinha pelo baile, que bastava às
vezes ouvir qualquer instrumento que tocavam os pastores para
começar a bailar, mesmo sozinha, quando se aproximou o S. João
e o Carnaval, disse-me:
– Eu, agora, já não bailo mais.
– E porquê?
– Porque quero oferecer este sacrifício a Nosso Senhor. E como
éramos as cabeças, na brincadeira, entre as crianças, acabaram
os bailes que se costumavam fazer nestas ocasiões.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-Amor ao Santo Padre
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Amor ao Santo Padre
Foram interrogar-nos dois sacerdotes que nos recomendaram
que rezássemos pelo Santo Padre. A Jacinta perguntou quem era
o Santo Padre e os bons sacerdotes explicaram-nos quem era e
como precisava muito de orações. A Jacinta ficou com tanto amor
ao Santo Padre que, sempre que oferecia os seus sacrifícios a
Jesus, acrescentava: e pelo Santo Padre. No fim de rezar o Terço,
rezava sempre três Ave Marias pelo Santo Padre e algumas vezes
dizia:
– Quem me dera ver o Santo Padre! Vem cá tanta gente e o
Santo Padre nunca cá vem.
Na sua inocência de criança, julgava que o Santo Padre podia
fazer esta viagem como as outras pessoas.
Um dia, meu pai e meu tio foram intimados para nos apresentarem,
no dia seguinte, em a Administração. Meu tio disse que não levava os seus filhos, porque, dizia ele, não tenho por que apresentar em um tribunal duas crianças que não são responsáveis pelos seus actos; e ademais disso, eles não aguentam o caminho a pé até Vila Nova de Ourém! Vou ver o que eles querem. Meu pai pensava doutra maneira:
– A minha, levo-a; ela que se arranje lá com eles, que eu cá
destas coisas não entendo nada.
Aproveitaram então a ocasião para nos meterem todos os sustos
possíveis. No dia seguinte, ao passar por casa de meu tio, meu
pai esperou alguns instantes por meu tio. Corri à cama de Jacinta
a dizer-lhe adeus. Na dúvida de nos tornarmos a ver, abracei-a. E
a pobre criança, chorando, disse-me:
– Se eles te matarem, diz-lhes que eu e mais o Francisco somos
como tu e que também queremos morrer. E vou já com o
Francisco para o poço rezar muito por ti.
Quando, à noitinha, voltei, corri ao poço e lá estavam os dois,
de joelhos, debruçados sobre a beira do poço, com a cabecinha
entre as mãos, a chorar. Assim que me viram, ficaram surpreendidos:
– Tu vens aí?! Veio aqui a tua irmã buscar água e disse-nos
que já te tinham matado. Já rezámos e chorámos tanto por ti!...
Amor ao Santo Padre
Foram interrogar-nos dois sacerdotes que nos recomendaram
que rezássemos pelo Santo Padre. A Jacinta perguntou quem era
o Santo Padre e os bons sacerdotes explicaram-nos quem era e
como precisava muito de orações. A Jacinta ficou com tanto amor
ao Santo Padre que, sempre que oferecia os seus sacrifícios a
Jesus, acrescentava: e pelo Santo Padre. No fim de rezar o Terço,
rezava sempre três Ave Marias pelo Santo Padre e algumas vezes
dizia:
– Quem me dera ver o Santo Padre! Vem cá tanta gente e o
Santo Padre nunca cá vem.
Na sua inocência de criança, julgava que o Santo Padre podia
fazer esta viagem como as outras pessoas.
Um dia, meu pai e meu tio foram intimados para nos apresentarem,
no dia seguinte, em a Administração. Meu tio disse que não levava os seus filhos, porque, dizia ele, não tenho por que apresentar em um tribunal duas crianças que não são responsáveis pelos seus actos; e ademais disso, eles não aguentam o caminho a pé até Vila Nova de Ourém! Vou ver o que eles querem. Meu pai pensava doutra maneira:
– A minha, levo-a; ela que se arranje lá com eles, que eu cá
destas coisas não entendo nada.
Aproveitaram então a ocasião para nos meterem todos os sustos
possíveis. No dia seguinte, ao passar por casa de meu tio, meu
pai esperou alguns instantes por meu tio. Corri à cama de Jacinta
a dizer-lhe adeus. Na dúvida de nos tornarmos a ver, abracei-a. E
a pobre criança, chorando, disse-me:
– Se eles te matarem, diz-lhes que eu e mais o Francisco somos
como tu e que também queremos morrer. E vou já com o
Francisco para o poço rezar muito por ti.
Quando, à noitinha, voltei, corri ao poço e lá estavam os dois,
de joelhos, debruçados sobre a beira do poço, com a cabecinha
entre as mãos, a chorar. Assim que me viram, ficaram surpreendidos:
– Tu vens aí?! Veio aqui a tua irmã buscar água e disse-nos
que já te tinham matado. Já rezámos e chorámos tanto por ti!...
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-Resistência da família
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Resistência da família
Entretanto, a notícia do acontecimento tinha-se espalhado.
Minha mãe começava a afligir-se e queria, a todo o custo, que eu
me desdissesse. Um dia, antes que saísse com o rebanho, quis
obrigar-me a confessar que tinha mentido. Não poupou, para isso,
carinhos, ameaças, nem mesmo o cabo da vassoura. Não conseguindo obter outra resposta que um mudo silêncio ou a
confirmação do que já tinha dito, mandou-me abrir o rebanho,
dizendo que pensasse bem, durante o dia; que, se nunca tinha
consentido uma mentira nos seus filhos, muito menos consentia agora uma daquela espécie; que, à noite, me obrigaria a ir junto
daquelas pessoas a quem tinha enganado, confessar que tinha
mentido e pedir perdão.
Lá fui com as minhas ovelhinhas; e nesse dia já os meus
companheiros me esperavam. Ao verem-me a chorar, correram a
perguntar-me a causa. Contei-lhes o que se tinha passado e
acrescentei:
– Agora, digam-me como vou fazer?! Minha mãe quer, a todo
o custo, que diga que menti; e como vou a dizê-lo?
Então o Francisco diz para a Jacinta:
– Vês? Tu é que tens a culpa! Para que o foste a dizer?
A pobre criança, chorando, põe-se de joelhos, com as mãos
postas, a pedir-nos perdão:
– Fiz mal – dizia, chorando – mas eu nunca mais digo nada a
ninguém!
Agora, perguntará V. Ex.cia: Quem Ihe ensinou a fazer esse
acto de humildade?!
– Não sei. Talvez por ver seus irmãozinhos pedir perdão a
seus pais, na véspera de comungar; ou porque a Jacinta foi, segundo me parece, aquela a quem a Santíssima Virgem comunicou
maior abundância de graça, conhecimento de Deus e da virtude.
Quando, algum tempo depois, o Senhor Prior nos mandou chamar, para nos interrogar, a Jacinta baixou a cabeça e a custo sua Rev.cia conseguiu obter dela apenas duas ou três palavras.
Quando viemos embora, perguntei-lhe:
– Por que não querias responder ao Senhor Prior?
– Porque prometi não dizer mais nada a ninguém!
Um dia perguntou:
– Por que não podemos dizer que aquela Senhora nos disse
para fazermos sacrifícios pelos pecadores?
– Para que não nos perguntem que sacrifícios fazemos.
Minha mãe afligia-se cada vez mais com o progresso dos acontecimentos.
Empregou, por isso, mais um esforço para me obrigar
a confessar que tinha mentido. Um dia, pela manhã, chama-me e
diz que me vai levar a casa do Senhor Prior:
– Quando lá chegares, pões-te de joelhos, dizes-lhe que mentiste
e pedes-lhe perdão.
Ao passar por casa de minha tia, minha mãe entrou uns minutos.
Aproveitei a ocasião para contar à Jacinta o que se passava.
Ao ver-me aflita, deixou cair algumas lágrimas e disse-me:
– Vou-me já levantar e vou chamar o Francisco. Vamos para o
teu poço rezar. Quando voltares, vai lá ter.
À volta, corri ao poço e lá estavam os dois, de joelhos, a rezar.
Logo que me viram, a Jacinta correu a abraçar(-me) e a perguntar
como tinha feito. Contei-lhes. Depois, disse-me:
– Vês?! Não devemos ter medo de nada! Aquela Senhora ajuda-
nos sempre. É tão nossa amiga!
Desde que Nossa Senhora nos ensinou a oferecer a Jesus os
nossos sacrifícios, sempre que combinávamos fazer algum ou que
tínhamos alguma prova a sofrer, a Jacinta perguntava:
– Já disseste a Jesus que é por Seu amor?
Se Ihe dizia que não...
– Então digo-Lho eu.
E punha as mãozinhas, levantava os olhos ao Céu e dizia:
– Ó Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores.
Resistência da família
Entretanto, a notícia do acontecimento tinha-se espalhado.
Minha mãe começava a afligir-se e queria, a todo o custo, que eu
me desdissesse. Um dia, antes que saísse com o rebanho, quis
obrigar-me a confessar que tinha mentido. Não poupou, para isso,
carinhos, ameaças, nem mesmo o cabo da vassoura. Não conseguindo obter outra resposta que um mudo silêncio ou a
confirmação do que já tinha dito, mandou-me abrir o rebanho,
dizendo que pensasse bem, durante o dia; que, se nunca tinha
consentido uma mentira nos seus filhos, muito menos consentia agora uma daquela espécie; que, à noite, me obrigaria a ir junto
daquelas pessoas a quem tinha enganado, confessar que tinha
mentido e pedir perdão.
Lá fui com as minhas ovelhinhas; e nesse dia já os meus
companheiros me esperavam. Ao verem-me a chorar, correram a
perguntar-me a causa. Contei-lhes o que se tinha passado e
acrescentei:
– Agora, digam-me como vou fazer?! Minha mãe quer, a todo
o custo, que diga que menti; e como vou a dizê-lo?
Então o Francisco diz para a Jacinta:
– Vês? Tu é que tens a culpa! Para que o foste a dizer?
A pobre criança, chorando, põe-se de joelhos, com as mãos
postas, a pedir-nos perdão:
– Fiz mal – dizia, chorando – mas eu nunca mais digo nada a
ninguém!
Agora, perguntará V. Ex.cia: Quem Ihe ensinou a fazer esse
acto de humildade?!
– Não sei. Talvez por ver seus irmãozinhos pedir perdão a
seus pais, na véspera de comungar; ou porque a Jacinta foi, segundo me parece, aquela a quem a Santíssima Virgem comunicou
maior abundância de graça, conhecimento de Deus e da virtude.
Quando, algum tempo depois, o Senhor Prior nos mandou chamar, para nos interrogar, a Jacinta baixou a cabeça e a custo sua Rev.cia conseguiu obter dela apenas duas ou três palavras.
Quando viemos embora, perguntei-lhe:
– Por que não querias responder ao Senhor Prior?
– Porque prometi não dizer mais nada a ninguém!
Um dia perguntou:
– Por que não podemos dizer que aquela Senhora nos disse
para fazermos sacrifícios pelos pecadores?
– Para que não nos perguntem que sacrifícios fazemos.
Minha mãe afligia-se cada vez mais com o progresso dos acontecimentos.
Empregou, por isso, mais um esforço para me obrigar
a confessar que tinha mentido. Um dia, pela manhã, chama-me e
diz que me vai levar a casa do Senhor Prior:
– Quando lá chegares, pões-te de joelhos, dizes-lhe que mentiste
e pedes-lhe perdão.
Ao passar por casa de minha tia, minha mãe entrou uns minutos.
Aproveitei a ocasião para contar à Jacinta o que se passava.
Ao ver-me aflita, deixou cair algumas lágrimas e disse-me:
– Vou-me já levantar e vou chamar o Francisco. Vamos para o
teu poço rezar. Quando voltares, vai lá ter.
À volta, corri ao poço e lá estavam os dois, de joelhos, a rezar.
Logo que me viram, a Jacinta correu a abraçar(-me) e a perguntar
como tinha feito. Contei-lhes. Depois, disse-me:
– Vês?! Não devemos ter medo de nada! Aquela Senhora ajuda-
nos sempre. É tão nossa amiga!
Desde que Nossa Senhora nos ensinou a oferecer a Jesus os
nossos sacrifícios, sempre que combinávamos fazer algum ou que
tínhamos alguma prova a sofrer, a Jacinta perguntava:
– Já disseste a Jesus que é por Seu amor?
Se Ihe dizia que não...
– Então digo-Lho eu.
E punha as mãozinhas, levantava os olhos ao Céu e dizia:
– Ó Jesus, é por Vosso amor e pela conversão dos pecadores.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-Amor aos pecadores
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Amor aos pecadores
A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão
dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia
umas crianças, filhos de duas famílias da Moita, que andavam
pelas portas a pedir. Encontrámo-las, um dia, quando íamos com o
nosso rebanho. A Jacinta, ao vê-los, disse-nos:
– Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão
dos pecadores?
E correu a levar-lha. Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia
ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante
verde, no entanto disse-lhe que podíamos comer dela. O Francisco
subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta
lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o
sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele
delicioso manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios
habituais. Colhia as bolotas dos carvalhos ou a azeitona das
oliveiras.
Disse-lhe um dia:
– Jacinta, não comas isso, que amarga muito.
– Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.
Não foram só estes os nossos jejuns. Combinámos, sempre
que encontrássemos os tais pobrezinhos, dar-lhes a nossa merenda;
e as pobres crianças, contentes com a nossa esmola, procuravam
encontrar-nos e esperavam-nos pelo caminho. Logo queos víamos, a Jacinta corria e levar-lhes todo o nosso sustento dessedia, com tanta satisfação, como se não Ihe fizesse falta. Era,então, o nosso sustento, nesses dias: pinhões, raízes de campainhas
(é uma florzinha amarela que tem na raiz uma bolinha do
tamanho duma azeitona), amoras, cogumelos e umas coisas que
colhíamos na raiz dos pinheiros, que não me lembro agora como
se chamam; ou fruta, se a havia perto, em alguma propriedade
pertencente a nossos pais.
A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício. Um dia,
um vizinho ofereceu a minha mãe uma boa pastagem para o nosso
rebanho; mas era bastante longe e estávamos no pino do Verão.
Minha mãe aceitou o oferecimento feito com tanta generosidade e
mandou-me para lá. Como havia perto uma lagoa, onde o rebanho
podia ir beber, disse-me que era melhor passarmos lá a sesta, à
sombra das árvores. Pelo caminho, encontrámos os nossos
queridos pobrezinhos e a Jacinta correu a levar-lhes a esmola. O
dia estava lindo, mas o sol era ardente; e naquela pregueiraárida e seca, parecia querer abrasar tudo. A sede fazia-se sentir e não havia pinga d’água para beber! A princípio, oferecíamos o sacrifício com generosidade, pela conversão dos pecadores; mas, passada a hora do meio-dia, não se resistia.
Propus, então, aos meus companheiros, ir a um lugar, que
ficava cerca, pedir uma pouca de água. Aceitaram a proposta e lá
fui bater à porta duma velhinha que, ao dar-me uma infusa com
água, me deu também um bocadinho de pão que aceitei com reconhecimento e corri a distribuir com os meus companheiros. Em
seguida, dei a infusa ao Francisco e disse-lhe que bebesse.
– Não quero beber – respondeu.
– Por quê?
– Quero sofrer pela conversão dos pecadores.
– Bebe tu, Jacinta!
–Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores!
Deitei, então, a água em a cova duma pedra, para que a bebessem
as ovelhas e fui levar a infusa à sua dona. O calor tornava-
-se cada vez mais intenso. As cigarras e os grilos juntavam o seu
cantar ao das rãs da lagoa vizinha e faziam uma grita insuportável.
A Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, disse-me, com
aquela simplicidade que Ihe era habitual:
– Diz aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha
cabeça!
Então, o Francisco perguntou-lhe:
– Não queres sofrer isto pelos pecadores?!
A pobre criança, apertando a cabeça entre as mãozinhas, respondeu:
– Sim, quero. Deixa-as cantar.
Amor aos pecadores
A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão
dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia
umas crianças, filhos de duas famílias da Moita, que andavam
pelas portas a pedir. Encontrámo-las, um dia, quando íamos com o
nosso rebanho. A Jacinta, ao vê-los, disse-nos:
– Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão
dos pecadores?
E correu a levar-lha. Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia
ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante
verde, no entanto disse-lhe que podíamos comer dela. O Francisco
subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta
lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o
sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele
delicioso manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios
habituais. Colhia as bolotas dos carvalhos ou a azeitona das
oliveiras.
Disse-lhe um dia:
– Jacinta, não comas isso, que amarga muito.
– Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.
Não foram só estes os nossos jejuns. Combinámos, sempre
que encontrássemos os tais pobrezinhos, dar-lhes a nossa merenda;
e as pobres crianças, contentes com a nossa esmola, procuravam
encontrar-nos e esperavam-nos pelo caminho. Logo queos víamos, a Jacinta corria e levar-lhes todo o nosso sustento dessedia, com tanta satisfação, como se não Ihe fizesse falta. Era,então, o nosso sustento, nesses dias: pinhões, raízes de campainhas
(é uma florzinha amarela que tem na raiz uma bolinha do
tamanho duma azeitona), amoras, cogumelos e umas coisas que
colhíamos na raiz dos pinheiros, que não me lembro agora como
se chamam; ou fruta, se a havia perto, em alguma propriedade
pertencente a nossos pais.
A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício. Um dia,
um vizinho ofereceu a minha mãe uma boa pastagem para o nosso
rebanho; mas era bastante longe e estávamos no pino do Verão.
Minha mãe aceitou o oferecimento feito com tanta generosidade e
mandou-me para lá. Como havia perto uma lagoa, onde o rebanho
podia ir beber, disse-me que era melhor passarmos lá a sesta, à
sombra das árvores. Pelo caminho, encontrámos os nossos
queridos pobrezinhos e a Jacinta correu a levar-lhes a esmola. O
dia estava lindo, mas o sol era ardente; e naquela pregueiraárida e seca, parecia querer abrasar tudo. A sede fazia-se sentir e não havia pinga d’água para beber! A princípio, oferecíamos o sacrifício com generosidade, pela conversão dos pecadores; mas, passada a hora do meio-dia, não se resistia.
Propus, então, aos meus companheiros, ir a um lugar, que
ficava cerca, pedir uma pouca de água. Aceitaram a proposta e lá
fui bater à porta duma velhinha que, ao dar-me uma infusa com
água, me deu também um bocadinho de pão que aceitei com reconhecimento e corri a distribuir com os meus companheiros. Em
seguida, dei a infusa ao Francisco e disse-lhe que bebesse.
– Não quero beber – respondeu.
– Por quê?
– Quero sofrer pela conversão dos pecadores.
– Bebe tu, Jacinta!
–Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores!
Deitei, então, a água em a cova duma pedra, para que a bebessem
as ovelhas e fui levar a infusa à sua dona. O calor tornava-
-se cada vez mais intenso. As cigarras e os grilos juntavam o seu
cantar ao das rãs da lagoa vizinha e faziam uma grita insuportável.
A Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, disse-me, com
aquela simplicidade que Ihe era habitual:
– Diz aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha
cabeça!
Então, o Francisco perguntou-lhe:
– Não queres sofrer isto pelos pecadores?!
A pobre criança, apertando a cabeça entre as mãozinhas, respondeu:
– Sim, quero. Deixa-as cantar.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA- Primeira Aparição
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
Primeira Aparição
Eis aqui, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, um pouco mais ou
menos, como se passaram os sete anos, que tinha a Jacinta,
quando apareceu belo e risonho, como tantos outros, o dia 13 de
Maio de 1917. Escolhemos nesse dia, por acaso, se é que nos
desígnios da Providência há acasos, para pastagem do nosso
rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova
de Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia,
junto do Barreiro de que já falei a V. Ex.cia Rev.ma e tivemos, por
isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho
dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que
as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho; e assim chegámos
cerca do meio-dia.
Não me detenho agora a contar o que se passou nesse dia,
porque V. Ex.cia Rev.ma já sabe tudo e seria perder tempo, como
perdê-lo me parece, a não ser por estar a obedecer, todo o que
levo a escrever isto, pois não vejo que utilidade V. Ex.cia Rev.ma
possa tirar daqui, a não ser o conhecimento da inocência da vida
desta alma.
Antes de começar a contar-vos, Ex.mo e Rev.mo Senhor, o que
me lembro do novo período da vida da Jacinta, tenho que dizer
que há algumas coisas, nas manifestações de Nossa Senhora,
que nós tínhamos combinado nunca dizer a ninguém e talvez agora
me veja obrigada a dizer alguma coisa disso, para dizer onde a
Jacinta foi beber tanto amor a Jesus, ao sofrimento e aos pecadores,
pela salvação dos quais tanto se sacrificou. V. Ex.cia Rev.ma não
ignora como foi ela que, não podendo conter em si tanto gozo,
quebrou o nosso contrato de não dizer nada a ninguém. Quando,
nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos
pensativos, a Jacinta, de vez em quando exclamava com entusiasmo:
– Ai! que Senhora tão bonita!
– Estou mesmo a ver – dizia-lhe eu. – Ainda vais dizer a alguém.
– Não digo, não! – respondia. – Está descansada.
No dia seguinte, quando seu irmão correu a dar-me a notícia
de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusaçãosem dizer nada.
– Vês? Eu bem me parecia! – disse-lhe eu.
– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada
– respondeu, com as lágrimas nos olhos.
– Agora não chores; e não digas mais nada a ninguém do que
essa Senhora nos disse.
– Eu já disse!
– O que disseste?!
– Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!
– E logo foste dizer isso!
– Perdoa-me; eu não digo mais nada a ninguém!
Meditação sobre o Inferno
Quando, nesse dia, chegámos à pastagem, a Jacinta sentou-se pensativa, em uma pedra.
– Jacinta! Anda brincar!
– Hoje não quero brincar.
– Por que não queres brincar?
– Porque estou a pensar. Aquela Senhora disse-nos para
rezarmos o Terço e fazermos sacrifícios pela conversão dos
pecadores. Agora, quando rezarmos o Terço, temos que rezar a
Ave Maria e o Padre Nosso inteiro. E os sacrifícios como os
havemos de fazer?
O Francisco discorreu em breve um bom sacrifício:
– Demos a nossa merenda às ovelhas e fazemos o sacrifício
de não merendar!
Em poucos minutos, estava todo o nosso farnel distribuído pelo
rebanho. E assim passámos um dia de jejum, que nem o do mais
austero cartuxo! A Jacinta continuava sentada na sua pedra, com
ar de pensativa e perguntou:
– Aquela Senhora disse também que iam muitas almas para o
inferno. E o que é o inferno?
– É uma cova de bichos e uma fogueira muito grande (assim
mo explicava minha mãe) e vai para lá quem faz pecados e não se
confessa e fica lá sempre a arder.
– E nunca mais de lá sai?
– Não.
– E depois de muitos, muitos anos?!
– Não; o inferno nunca acaba. E o Céu também não. Quem vai
para o Céu nunca mais de lá sai. E quem vai para o inferno também não. Não vês que são eternos, que nunca acabam?
Fizemos, então, pela primeira vez, a meditação do inferno e
da eternidade. O que mais impressionou a Jacinta foi a eternidade.
Mesmo brincando, de vez em quando, perguntava:
– Mas, olha. Então, depois de muitos, muitos anos, o inferno
ainda não acaba?
Outras vezes:
– E aquela gente que lá está a arder não morre? E não se faz
em cinza? E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor
livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos!
Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!
Depois, acrescentava:
– Que boa é aquela Senhora! Já nos prometeu levar para o Céu!
Primeira Aparição
Eis aqui, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, um pouco mais ou
menos, como se passaram os sete anos, que tinha a Jacinta,
quando apareceu belo e risonho, como tantos outros, o dia 13 de
Maio de 1917. Escolhemos nesse dia, por acaso, se é que nos
desígnios da Providência há acasos, para pastagem do nosso
rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova
de Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia,
junto do Barreiro de que já falei a V. Ex.cia Rev.ma e tivemos, por
isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho
dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que
as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho; e assim chegámos
cerca do meio-dia.
Não me detenho agora a contar o que se passou nesse dia,
porque V. Ex.cia Rev.ma já sabe tudo e seria perder tempo, como
perdê-lo me parece, a não ser por estar a obedecer, todo o que
levo a escrever isto, pois não vejo que utilidade V. Ex.cia Rev.ma
possa tirar daqui, a não ser o conhecimento da inocência da vida
desta alma.
Antes de começar a contar-vos, Ex.mo e Rev.mo Senhor, o que
me lembro do novo período da vida da Jacinta, tenho que dizer
que há algumas coisas, nas manifestações de Nossa Senhora,
que nós tínhamos combinado nunca dizer a ninguém e talvez agora
me veja obrigada a dizer alguma coisa disso, para dizer onde a
Jacinta foi beber tanto amor a Jesus, ao sofrimento e aos pecadores,
pela salvação dos quais tanto se sacrificou. V. Ex.cia Rev.ma não
ignora como foi ela que, não podendo conter em si tanto gozo,
quebrou o nosso contrato de não dizer nada a ninguém. Quando,
nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos
pensativos, a Jacinta, de vez em quando exclamava com entusiasmo:
– Ai! que Senhora tão bonita!
– Estou mesmo a ver – dizia-lhe eu. – Ainda vais dizer a alguém.
– Não digo, não! – respondia. – Está descansada.
No dia seguinte, quando seu irmão correu a dar-me a notícia
de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusaçãosem dizer nada.
– Vês? Eu bem me parecia! – disse-lhe eu.
– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada
– respondeu, com as lágrimas nos olhos.
– Agora não chores; e não digas mais nada a ninguém do que
essa Senhora nos disse.
– Eu já disse!
– O que disseste?!
– Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!
– E logo foste dizer isso!
– Perdoa-me; eu não digo mais nada a ninguém!
Meditação sobre o Inferno
Quando, nesse dia, chegámos à pastagem, a Jacinta sentou-se pensativa, em uma pedra.
– Jacinta! Anda brincar!
– Hoje não quero brincar.
– Por que não queres brincar?
– Porque estou a pensar. Aquela Senhora disse-nos para
rezarmos o Terço e fazermos sacrifícios pela conversão dos
pecadores. Agora, quando rezarmos o Terço, temos que rezar a
Ave Maria e o Padre Nosso inteiro. E os sacrifícios como os
havemos de fazer?
O Francisco discorreu em breve um bom sacrifício:
– Demos a nossa merenda às ovelhas e fazemos o sacrifício
de não merendar!
Em poucos minutos, estava todo o nosso farnel distribuído pelo
rebanho. E assim passámos um dia de jejum, que nem o do mais
austero cartuxo! A Jacinta continuava sentada na sua pedra, com
ar de pensativa e perguntou:
– Aquela Senhora disse também que iam muitas almas para o
inferno. E o que é o inferno?
– É uma cova de bichos e uma fogueira muito grande (assim
mo explicava minha mãe) e vai para lá quem faz pecados e não se
confessa e fica lá sempre a arder.
– E nunca mais de lá sai?
– Não.
– E depois de muitos, muitos anos?!
– Não; o inferno nunca acaba. E o Céu também não. Quem vai
para o Céu nunca mais de lá sai. E quem vai para o inferno também não. Não vês que são eternos, que nunca acabam?
Fizemos, então, pela primeira vez, a meditação do inferno e
da eternidade. O que mais impressionou a Jacinta foi a eternidade.
Mesmo brincando, de vez em quando, perguntava:
– Mas, olha. Então, depois de muitos, muitos anos, o inferno
ainda não acaba?
Outras vezes:
– E aquela gente que lá está a arder não morre? E não se faz
em cinza? E se a gente rezar muito por os pecadores, Nosso Senhor
livra-os de lá? E com os sacrifícios também? Coitadinhos!
Havemos de rezar e fazer muitos sacrifícios por eles!
Depois, acrescentava:
– Que boa é aquela Senhora! Já nos prometeu levar para o Céu!
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-I. RETRATO DE JACINTA
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
I. RETRATO DE JACINTA
1. Temperamento
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
Antes dos factos de 1917, exceptuando o laço de parentesco
que nos unia, nenhum outro afecto particular me fazia preferir a
companhia da Jacinta e Francisco, à de qualquer outra criança. Lúcia, apesar da sua deficiente cultura escolar, tinha uma inclinação poética.
Escreveu várias poesias.
Pelo contrário, a sua companhia tornava-se-me, por vezes, bastante
antipática, pelo seu carácter demasiado melindroso. A menor
contenda, das que se levantam entre as crianças, quando jogam,
era bastante para a fazer ficar amuada, a um canto, a prender o
burrinho, como nós dizíamos. Para a fazer voltar a ocupar o seu
lugar na brincadeira, não bastavam as mais doces carícias que em
tais ocasiões as crianças sabem fazer. Era então preciso deixá-la
escolher o jogo e o par com quem queria jogar. Tinha, no entanto,
já então, um coração muito bem inclinado, e o bom Deus tinha-a
dotado dum carácter doce e meigo que a tornava, ao mesmo tempo,
amável e atraente.
Não sei porquê, a Jacinta, com seu irmãozinho Francisco, tinham por mim uma predilecção especial e buscavam-me, quasesempre, para brincar. Não gostavam da companhia das outras crianças e pediam-me para ir com eles para junto dum poço que tinham meus pais, no fundo do quintal. Uma vez aí, a Jacinta escolhia os jogos em que nos íamos entreter. Os seus preferidos eram, quase sempre, sentados sobre esse poço, que era coberto de lajes por cima, à sombra duma oliveira e duas ameixieiras, o jogo das pedrinhas ou do botão. Com este vi-me também, não poucas vezes, em grandes aflições, porque, quando nos chamavam para comer, encontrava-me sem botões na roupa. Por ordinário, ela tinha-mos ganhado e isto era o bastante para que minha mãe me ralhasse. Era preciso pregá-los à pressa; e como conseguir que ela mos desse, se, além do defeitilho de amuar, tinha o de agarrada? Queria guardá-los para o jogo seguinte, para não ter que arrancar os dela. Só ameaçando-a de que não voltava mais a brincar com ela é que os conseguia!
Não poucas vezes acontecia não poder satisfazer o desejo da
minha amiguinha. Como minhas irmãs mais velhas, que eram uma
tecedeira e a outra costureira, passavam os dias em casa, as
vizinhas pediam a minha mãe para deixarem os seus filhinhos no
pátio de meus pais, junto de mim, a brincar, sob a vigilância de
minhas irmãs, enquanto que elas iam para os campos trabalhar.
Minha mãe dizia sempre que sim, embora custasse a minhas irmãs
uma boa perca de tempo. Eu era então encarregada de entreter
essas crianças e ter cuidado que não caíssem num poço que havia
nesse pátio. Três grandes figueiras resguardavam, dos ardores do
sol, a essas crianças; seus ramos serviam de balouço e uma velha
eira servia de sala de jantar. Quando, nesses dias, a Jacinta vinha
com seu irmãozinho a chamar-me para o nosso retiro, dizia-lhe
que não podia ir, pois minha mãe me tinha mandado estar ali. Então
os dois pequeninos resignavam-se com desgosto e tomavam parte
na brincadeira. Nas horas da sesta, minha mãe dava a seus filhos
a sua lição de doutrina, principalmente quando se aproximava a
quaresma, porque – dizia – não quero ficar envergonhada, quando
o Senhor Prior vos perguntar a doutrina, na desobriga. Então todas
aquelas crianças assistiam à nossa lição de catecismo; a Jacinta
lá estava também.
2. Delicadeza de alma
Um dia, um desses pequenos acusou outro de ter dito algumas
palavras pouco decentes. Minha mãe repreendeu-o com toda
a severidade, dizendo que aquelas coisas feias não se diziam, que
era pecado e que o Menino Jesus se desgostava e mandava para
o inferno os que faziam pecados, se não se confessavam. A
pequenina não esqueceu a lição. No primeiro dia que encontrou a
dita reunião de crianças, disse:
– Hoje tua mãe não te deixa ir?
– Não.
– Então eu vou para o meu pátio, com o Francisco.
– E por que não ficas aqui?
– Minha mãe não quer que, quando estiverem estes, aqui fiquemos.
Disse que fôssemos para o nosso pátio brincar. Não quer que aprenda essas coisas feias que são pecados e das que o Menino Jesus não gosta.
Depois, disse-me baixinho, ao ouvido:
– Se tua mãe te deixar, vens cá ter a minha casa?
– Sim.
– Então vai a pedir-lhe.
E tomando a mão do irmão, lá foi para sua casa.
Como já disse, um dos seus jogos escolhidos era o das prendas.
Como V. Ex.cia Rev.ma decerto sabe, quem ganha manda, ao
que perde, fazer uma coisa qualquer que Ihe parecer. Ela gostava
de mandar correr atrás das borboletas até apanhar uma e levar-
-lha. Outras vezes, mandava procurar uma flor qualquer que ela
escolhia. Um dia, jogávamos isto em casa de meus pais e tocou39
-me a mim mandá-la a ela. Meu irmão estava sentado a escrever
junto duma mesa. Mandei-a, então, dar-lhe um abraço e um beijo,
mas ela respondeu:
– Isso, não! Manda-me outra coisa. Por que não me mandas
beijar aquele Nosso Senhor que está ali? (era um crucifixo que
havia pendurado na parede).
– Pois sim – respondi. – Sobes acima duma cadeira, trazê-lo
para aqui e, de joelhos, dás-lhe três abraços e três beijos: um pelo
Francisco, outro por mim e outro por ti.
– A Nosso Senhor dou todos quantos quiseres.
E correu a buscar o crucifixo. Beijou-o e abraçou-o com tanta
devoção, que nunca mais me esqueceu aquela acção. Depois, olha
com atenção para Nosso Senhor e pergunta:
– Por que está Nosso Senhor assim pregado numa cruz?
– Porque morreu por nós.
– Conta-me como foi.
3. Amor a Cristo Crucificado
Minha mãe costumava, ao serão, contar contos. E entre os
contos de fadas encantadas, princesas douradas, pombinhas reais,
que nos contavam meu pai e minhas irmãs mais velhas, vinha minha mãe com a história da Paixão, de S. João Baptista, etc., etc.
Eu conhecia, pois, a Paixão de Nosso Senhor como uma história;
e como me bastava ouvir as histórias uma vez para as repetir
com todos os seus detalhes, comecei a contar aos meus
companheiros, pormenorizadamente, a história de Nosso Senhor,
como eu Ihe chamava. Quando minha irmã (Maria dos Anjos, a irmã mais velha de Lúcia (†1986) ao passar por junto
de nós, se dá conta que tínhamos o crucifixo nas mãos, tira-no-lo e repreende-me, dizendo que não quer que toque nos santinhos.
A Jacinta levanta-se, vai junto de minha irmã e diz-lhe:
– Maria, não ralhes! Fui eu, mas não torno mais.
Minha irmã fez-lhe uma carícia e disse-nos que fôssemos a
brincar lá para fora, dizendo que em casa não deixávamos parar
nada no seu lugar.
Lá fomos contar a nossa história para cima do poço de que já
falei e que, por estar escondido detrás duns castanheiros, dum
monte de pedras e dum silvado, havíamos de escolher, alguns anos
depois, para cela dos nossos colóquios, de fervorosas orações e,
também, Ex.mo Rev.mo Senhor, para dizer-vos tudo, também de lágrimas, por vezes bem amargas. Misturávamos as nossas lágrimas
às suas águas, para bebê-las depois, na mesma fonte onde as
derramávamos. Não seria essa cisterna a imagem de Maria, em
cujo Coração enxugávamos o nosso pranto e bebíamos a mais
pura consolação?
Mas voltando à nossa história:
Ao ouvir contar os sofrimentos de Nosso Senhor, a pequenina
enterneceu-se e chorou. Muitas vezes, depois, pedia para Iha
repetir. Chorava com pena e dizia:
– Coitadinho de Nosso Senhor! Eu não hei-de fazer nunca
nenhum pecado. Não quero que Nosso Senhor sofra mais.
4. Sensibilidade
A pequenita gostava também muito de ir, à noitinha, para uma
eira que tínhamos em frente da casa, ver o lindo pôr do sol e o céu
estrelado que se Ihe seguia. Entusiasmava-se com as lindas noites
de luar. Porfiávamos a ver quem era capaz de contar as estrelas
que dizíamos serem as candeias dos Anjos. A lua era a de Nossa
Senhora e o sol a de Nosso Senhor, pelo que a Jacinta dizia, às
vezes:
– Ainda gosto mais da candeia de Nossa Senhora, que não
nos queima nem cega; e a de Nosso Senhor, sim.
Na verdade, o sol, em alguns dias de verão, faz-se sentir bem
ardente; e a pequenina, como era de compleição muito fraca, sofria
muito com o calor.
5. Catequese infantil
Como minha irmã era zeladora do Coração de Jesus, sempre
que havia comunhão solene de crianças, levava-me a renovar a
minha. Minha tia levou, uma vez, a sua filhinha a ver a festa. A
pequenita fixou-se nos anjos que deitavam flores. Desde esse dia,
de vez em quando afastava-se de nós, quando jogávamos; colhia
uma arregaçada de flores e vinha atirar-me com elas.
– Jacinta, para que fazes isso?
– Faço como os anjinhos, deito-te flores.
Minha irmã costumava, ainda, em uma festa anual que devia
ser, talvez, a de Corpus (Christi), vestir alguns anjinhos, para irem
ao lado do pálio, na procissão, a deitar flores. Como eu era sempre
uma das designadas, uma vez, quando minha irmã me provou o
vestido, contei à Jacinta a festa que se aproximava e como eu ia a
deitar flores a Jesus. A pequenita pediu-me, então, para eu pedir a
minha irmã para a deixar ir também. Fomos as duas fazer o pedido;
minha irmã disse-nos que sim. Provou-lhe também um vestido e,
nos ensaios, disse-nos como devíamos deitar as flores ao Menino
Jesus. A Jacinta perguntou:
– E nós vêmo-Lo?
– Sim – respondeu minha irmã –, leva-O o Senhor Prior.
A Jacinta saltava de contente e perguntava continuamente se
ainda faltava muito para a festa. Chegou, por fim, o desejado dia e
a pequenita estava doida de contente. Lá nos colocaram as duas
ao lado do altar; e, na procissão, ao lado do pálio, cada uma com o
seu açafate de flores. Nos sítios marcados por minha irmã, atirava
a Jesus as minhas flores. Mas, por mais sinais que fiz à Jacinta,
não consegui que espalhasse nem uma. Olhava continuamente
para o Senhor Prior e nada mais. Quando terminou a função, minha
irmã trouxe-nos para fora da Igreja e perguntou:
– Jacinta, por que não deitaste as flores a Jesus?
– Porque não O vi.
Depois, perguntou-me:
– Então tu viste o Menino Jesus?
– Não! Mas tu não sabes que o Menino Jesus da hóstia, que
não se vê, está escondido?! É O que nós recebemos na comunhão.
– E tu, quando comungas, falas com Ele?
– Falo.
– E por que não O vês?
– Porque está escondido.
– Vou pedir a minha mãe que me deixe ir também a comungar.
– O Senhor Prior não ta dá sem teres 10 anos.
– Mas tu ainda os não tens e já comungaste!
– Porque sabia a doutrina toda e tu não a sabes.
Pediram-me, então, para os ensinar. Constituí-me, então,
catequista dos meus dois companheiros que aprendiam com um
entusiasmo único. Mas eu que, quando me interrogavam, respondia
a tudo, agora, para ensinar, poucas coisas me lembravam, o
que fez com que a Jacinta me dissesse, um dia:
– Ensina-nos mais coisas, que essas já as sabemos.
Confessei que não me lembravam sem mas perguntarem, e
acrescentei:
– Pede a tua mãe que te deixe ir à Igreja aprender.
Os dois pequenitos, que desejavam ardentemente receber a
Jesus escondido, como eles diziam, foram fazer o pedido à mãe.
Minha tia disse que sim, mas poucas vezes os deixava ir, por que,
dizia ela, a Igreja é bastante longe, vocês são muito pequeninos e,
de todos (os) modos, o Senhor Prior não vos dá a comunhão antes
dos 10 anos (Jacinta nasceu em 11 de Março de 1910).
A Jacinta fazia-me continuamente perguntas a respeito de
Jesus escondido e lembro-me que, um dia, perguntou-me:
– Como é que tanta gente recebe ao mesmo tempo o Menino
Jesus escondido? É um bocadito para cada um?
– Não. Não vês que são muitas hóstias e que em cada uma
está um Menino?!
Quantos disparates Ihe terei dito!
6. Jacinta, a pequena Pastora
Entretanto, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, cheguei à idade em
que minha mãe mandava os seus filhos guardar o rebanho. Minha
irmã Carolina fez os seus 13 anos (Carolina faleceu em 31 de Março de 1992) e era preciso começar a trabalhar. Minha mãe entregou-me, por isso, o cuidado do nossorebanho. Dei a notícia aos meus companheiros e disse-Ihes que não voltava mais a brincar com eles; mas os pequenitos não seconformavam com a separação. Foram pedir à mãe que os deixasse ir comigo, o que Ihes foi negado. Tivemos que nos conformar com a separação. Vinham, então, quase todos os dias, à noitinha, esperar-me ao caminho e lá íamos, então, para a eira, dar algumas corridas, à espera que Nossa Senhora e os Anjos acendessem as suas candeias e as viessem pôr à janela para nos alumiar, como nós dizíamos. Quando não havia luar, dizíamos que a candeia de Nossa Senhora não tinha azeite.
Aos dois pequenitos custava a conformar com a ausência da
sua antiga companheira. Por isso, renovavam continuamente as
instâncias junto de sua mãe, para que os deixasse, também eles,
guardar o seu rebanho. Minha tia, talvez para se ver livre de tantos
pedidos, apesar de serem demasiado pequenos, entregou-lhes a
guarda das suas ovelhinhas. Radiantes de alegria, foram dar-me a
notícia e combinar como juntaríamos todos os dias os nossos rebanhos.
Cada um abriria o seu à hora que Ihe mandasse sua mãe
e o primeiro esperava pelo outro, no Barreiro (assim chamávamos
a uma pequena lagoa que estava ao fundo da serra). Uma vez
juntos, combinávamos qual a pastagem do dia e para lá íamos, tão
felizes e contentes, como se fôssemos para uma festa!
Aqui temos, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, a Jacinta na sua
nova vida de pastorinha. As ovelhinhas ganhámo-las à força de
distribuir por elas as nossas merendas. Por isso, quando chegávamos à pastagem, podíamos brincar descansados, que elas não se afastavam de nós. A Jacinta gostava muito de ouvir o eco da
voz no fundo dos vales. Por isso, um dos nossos entretenimentos
era, no cimo dos montes, sentados no penedo maior, pronunciar
nomes em alta voz. O nome que melhor ecoava era o de Maria. A
Jacinta dizia, às vezes, assim, a Ave Maria inteira, repetindo a palavra seguinte só quando a precedente tinha acabado de ecoar.
Gostávamos também de entoar cânticos. Entre vários profanos,
que infelizmente sabíamos bastantes, a Jacinta preferia o Salve
Nobre Padroeira, Virgem Pura, Anjos, cantai comigo. Éramos, no
entanto, bastante afeiçoados ao baile e qualquer instrumento que
ouvíssemos tocar aos outros pastores era o bastante para nos pôr
a dançar. A Jacinta, apesar de ser tão pequena, tinha, para isso,
uma arte especial.
Tinham-nos recomendado que, depois da merenda, rezássemos
o Terço; mas, como todo o tempo nos parecia pouco, para
brincar, arranjámos uma boa maneira de acabar breve: passávamos
as contas, dizendo somente: Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria!
Quando chegávamos ao fim do mistério, dizíamos, com muita
pausa, a simples palavra: Padre Nosso! E assim, em um abrir e fechar de olhos, como se costuma dizer, tínhamos o nosso Terço
rezado!
A Jacinta gostava também muito de agarrar os cordeirinhos
brancos, sentar-se com eles no colo, abraçá-los, beijá-los e, à noite,
trazê-los ao colo para casa, para que não se cansassem. Um
dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que
me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao
colo.
I. RETRATO DE JACINTA
1. Temperamento
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
Antes dos factos de 1917, exceptuando o laço de parentesco
que nos unia, nenhum outro afecto particular me fazia preferir a
companhia da Jacinta e Francisco, à de qualquer outra criança. Lúcia, apesar da sua deficiente cultura escolar, tinha uma inclinação poética.
Escreveu várias poesias.
Pelo contrário, a sua companhia tornava-se-me, por vezes, bastante
antipática, pelo seu carácter demasiado melindroso. A menor
contenda, das que se levantam entre as crianças, quando jogam,
era bastante para a fazer ficar amuada, a um canto, a prender o
burrinho, como nós dizíamos. Para a fazer voltar a ocupar o seu
lugar na brincadeira, não bastavam as mais doces carícias que em
tais ocasiões as crianças sabem fazer. Era então preciso deixá-la
escolher o jogo e o par com quem queria jogar. Tinha, no entanto,
já então, um coração muito bem inclinado, e o bom Deus tinha-a
dotado dum carácter doce e meigo que a tornava, ao mesmo tempo,
amável e atraente.
Não sei porquê, a Jacinta, com seu irmãozinho Francisco, tinham por mim uma predilecção especial e buscavam-me, quasesempre, para brincar. Não gostavam da companhia das outras crianças e pediam-me para ir com eles para junto dum poço que tinham meus pais, no fundo do quintal. Uma vez aí, a Jacinta escolhia os jogos em que nos íamos entreter. Os seus preferidos eram, quase sempre, sentados sobre esse poço, que era coberto de lajes por cima, à sombra duma oliveira e duas ameixieiras, o jogo das pedrinhas ou do botão. Com este vi-me também, não poucas vezes, em grandes aflições, porque, quando nos chamavam para comer, encontrava-me sem botões na roupa. Por ordinário, ela tinha-mos ganhado e isto era o bastante para que minha mãe me ralhasse. Era preciso pregá-los à pressa; e como conseguir que ela mos desse, se, além do defeitilho de amuar, tinha o de agarrada? Queria guardá-los para o jogo seguinte, para não ter que arrancar os dela. Só ameaçando-a de que não voltava mais a brincar com ela é que os conseguia!
Não poucas vezes acontecia não poder satisfazer o desejo da
minha amiguinha. Como minhas irmãs mais velhas, que eram uma
tecedeira e a outra costureira, passavam os dias em casa, as
vizinhas pediam a minha mãe para deixarem os seus filhinhos no
pátio de meus pais, junto de mim, a brincar, sob a vigilância de
minhas irmãs, enquanto que elas iam para os campos trabalhar.
Minha mãe dizia sempre que sim, embora custasse a minhas irmãs
uma boa perca de tempo. Eu era então encarregada de entreter
essas crianças e ter cuidado que não caíssem num poço que havia
nesse pátio. Três grandes figueiras resguardavam, dos ardores do
sol, a essas crianças; seus ramos serviam de balouço e uma velha
eira servia de sala de jantar. Quando, nesses dias, a Jacinta vinha
com seu irmãozinho a chamar-me para o nosso retiro, dizia-lhe
que não podia ir, pois minha mãe me tinha mandado estar ali. Então
os dois pequeninos resignavam-se com desgosto e tomavam parte
na brincadeira. Nas horas da sesta, minha mãe dava a seus filhos
a sua lição de doutrina, principalmente quando se aproximava a
quaresma, porque – dizia – não quero ficar envergonhada, quando
o Senhor Prior vos perguntar a doutrina, na desobriga. Então todas
aquelas crianças assistiam à nossa lição de catecismo; a Jacinta
lá estava também.
2. Delicadeza de alma
Um dia, um desses pequenos acusou outro de ter dito algumas
palavras pouco decentes. Minha mãe repreendeu-o com toda
a severidade, dizendo que aquelas coisas feias não se diziam, que
era pecado e que o Menino Jesus se desgostava e mandava para
o inferno os que faziam pecados, se não se confessavam. A
pequenina não esqueceu a lição. No primeiro dia que encontrou a
dita reunião de crianças, disse:
– Hoje tua mãe não te deixa ir?
– Não.
– Então eu vou para o meu pátio, com o Francisco.
– E por que não ficas aqui?
– Minha mãe não quer que, quando estiverem estes, aqui fiquemos.
Disse que fôssemos para o nosso pátio brincar. Não quer que aprenda essas coisas feias que são pecados e das que o Menino Jesus não gosta.
Depois, disse-me baixinho, ao ouvido:
– Se tua mãe te deixar, vens cá ter a minha casa?
– Sim.
– Então vai a pedir-lhe.
E tomando a mão do irmão, lá foi para sua casa.
Como já disse, um dos seus jogos escolhidos era o das prendas.
Como V. Ex.cia Rev.ma decerto sabe, quem ganha manda, ao
que perde, fazer uma coisa qualquer que Ihe parecer. Ela gostava
de mandar correr atrás das borboletas até apanhar uma e levar-
-lha. Outras vezes, mandava procurar uma flor qualquer que ela
escolhia. Um dia, jogávamos isto em casa de meus pais e tocou39
-me a mim mandá-la a ela. Meu irmão estava sentado a escrever
junto duma mesa. Mandei-a, então, dar-lhe um abraço e um beijo,
mas ela respondeu:
– Isso, não! Manda-me outra coisa. Por que não me mandas
beijar aquele Nosso Senhor que está ali? (era um crucifixo que
havia pendurado na parede).
– Pois sim – respondi. – Sobes acima duma cadeira, trazê-lo
para aqui e, de joelhos, dás-lhe três abraços e três beijos: um pelo
Francisco, outro por mim e outro por ti.
– A Nosso Senhor dou todos quantos quiseres.
E correu a buscar o crucifixo. Beijou-o e abraçou-o com tanta
devoção, que nunca mais me esqueceu aquela acção. Depois, olha
com atenção para Nosso Senhor e pergunta:
– Por que está Nosso Senhor assim pregado numa cruz?
– Porque morreu por nós.
– Conta-me como foi.
3. Amor a Cristo Crucificado
Minha mãe costumava, ao serão, contar contos. E entre os
contos de fadas encantadas, princesas douradas, pombinhas reais,
que nos contavam meu pai e minhas irmãs mais velhas, vinha minha mãe com a história da Paixão, de S. João Baptista, etc., etc.
Eu conhecia, pois, a Paixão de Nosso Senhor como uma história;
e como me bastava ouvir as histórias uma vez para as repetir
com todos os seus detalhes, comecei a contar aos meus
companheiros, pormenorizadamente, a história de Nosso Senhor,
como eu Ihe chamava. Quando minha irmã (Maria dos Anjos, a irmã mais velha de Lúcia (†1986) ao passar por junto
de nós, se dá conta que tínhamos o crucifixo nas mãos, tira-no-lo e repreende-me, dizendo que não quer que toque nos santinhos.
A Jacinta levanta-se, vai junto de minha irmã e diz-lhe:
– Maria, não ralhes! Fui eu, mas não torno mais.
Minha irmã fez-lhe uma carícia e disse-nos que fôssemos a
brincar lá para fora, dizendo que em casa não deixávamos parar
nada no seu lugar.
Lá fomos contar a nossa história para cima do poço de que já
falei e que, por estar escondido detrás duns castanheiros, dum
monte de pedras e dum silvado, havíamos de escolher, alguns anos
depois, para cela dos nossos colóquios, de fervorosas orações e,
também, Ex.mo Rev.mo Senhor, para dizer-vos tudo, também de lágrimas, por vezes bem amargas. Misturávamos as nossas lágrimas
às suas águas, para bebê-las depois, na mesma fonte onde as
derramávamos. Não seria essa cisterna a imagem de Maria, em
cujo Coração enxugávamos o nosso pranto e bebíamos a mais
pura consolação?
Mas voltando à nossa história:
Ao ouvir contar os sofrimentos de Nosso Senhor, a pequenina
enterneceu-se e chorou. Muitas vezes, depois, pedia para Iha
repetir. Chorava com pena e dizia:
– Coitadinho de Nosso Senhor! Eu não hei-de fazer nunca
nenhum pecado. Não quero que Nosso Senhor sofra mais.
4. Sensibilidade
A pequenita gostava também muito de ir, à noitinha, para uma
eira que tínhamos em frente da casa, ver o lindo pôr do sol e o céu
estrelado que se Ihe seguia. Entusiasmava-se com as lindas noites
de luar. Porfiávamos a ver quem era capaz de contar as estrelas
que dizíamos serem as candeias dos Anjos. A lua era a de Nossa
Senhora e o sol a de Nosso Senhor, pelo que a Jacinta dizia, às
vezes:
– Ainda gosto mais da candeia de Nossa Senhora, que não
nos queima nem cega; e a de Nosso Senhor, sim.
Na verdade, o sol, em alguns dias de verão, faz-se sentir bem
ardente; e a pequenina, como era de compleição muito fraca, sofria
muito com o calor.
5. Catequese infantil
Como minha irmã era zeladora do Coração de Jesus, sempre
que havia comunhão solene de crianças, levava-me a renovar a
minha. Minha tia levou, uma vez, a sua filhinha a ver a festa. A
pequenita fixou-se nos anjos que deitavam flores. Desde esse dia,
de vez em quando afastava-se de nós, quando jogávamos; colhia
uma arregaçada de flores e vinha atirar-me com elas.
– Jacinta, para que fazes isso?
– Faço como os anjinhos, deito-te flores.
Minha irmã costumava, ainda, em uma festa anual que devia
ser, talvez, a de Corpus (Christi), vestir alguns anjinhos, para irem
ao lado do pálio, na procissão, a deitar flores. Como eu era sempre
uma das designadas, uma vez, quando minha irmã me provou o
vestido, contei à Jacinta a festa que se aproximava e como eu ia a
deitar flores a Jesus. A pequenita pediu-me, então, para eu pedir a
minha irmã para a deixar ir também. Fomos as duas fazer o pedido;
minha irmã disse-nos que sim. Provou-lhe também um vestido e,
nos ensaios, disse-nos como devíamos deitar as flores ao Menino
Jesus. A Jacinta perguntou:
– E nós vêmo-Lo?
– Sim – respondeu minha irmã –, leva-O o Senhor Prior.
A Jacinta saltava de contente e perguntava continuamente se
ainda faltava muito para a festa. Chegou, por fim, o desejado dia e
a pequenita estava doida de contente. Lá nos colocaram as duas
ao lado do altar; e, na procissão, ao lado do pálio, cada uma com o
seu açafate de flores. Nos sítios marcados por minha irmã, atirava
a Jesus as minhas flores. Mas, por mais sinais que fiz à Jacinta,
não consegui que espalhasse nem uma. Olhava continuamente
para o Senhor Prior e nada mais. Quando terminou a função, minha
irmã trouxe-nos para fora da Igreja e perguntou:
– Jacinta, por que não deitaste as flores a Jesus?
– Porque não O vi.
Depois, perguntou-me:
– Então tu viste o Menino Jesus?
– Não! Mas tu não sabes que o Menino Jesus da hóstia, que
não se vê, está escondido?! É O que nós recebemos na comunhão.
– E tu, quando comungas, falas com Ele?
– Falo.
– E por que não O vês?
– Porque está escondido.
– Vou pedir a minha mãe que me deixe ir também a comungar.
– O Senhor Prior não ta dá sem teres 10 anos.
– Mas tu ainda os não tens e já comungaste!
– Porque sabia a doutrina toda e tu não a sabes.
Pediram-me, então, para os ensinar. Constituí-me, então,
catequista dos meus dois companheiros que aprendiam com um
entusiasmo único. Mas eu que, quando me interrogavam, respondia
a tudo, agora, para ensinar, poucas coisas me lembravam, o
que fez com que a Jacinta me dissesse, um dia:
– Ensina-nos mais coisas, que essas já as sabemos.
Confessei que não me lembravam sem mas perguntarem, e
acrescentei:
– Pede a tua mãe que te deixe ir à Igreja aprender.
Os dois pequenitos, que desejavam ardentemente receber a
Jesus escondido, como eles diziam, foram fazer o pedido à mãe.
Minha tia disse que sim, mas poucas vezes os deixava ir, por que,
dizia ela, a Igreja é bastante longe, vocês são muito pequeninos e,
de todos (os) modos, o Senhor Prior não vos dá a comunhão antes
dos 10 anos (Jacinta nasceu em 11 de Março de 1910).
A Jacinta fazia-me continuamente perguntas a respeito de
Jesus escondido e lembro-me que, um dia, perguntou-me:
– Como é que tanta gente recebe ao mesmo tempo o Menino
Jesus escondido? É um bocadito para cada um?
– Não. Não vês que são muitas hóstias e que em cada uma
está um Menino?!
Quantos disparates Ihe terei dito!
6. Jacinta, a pequena Pastora
Entretanto, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, cheguei à idade em
que minha mãe mandava os seus filhos guardar o rebanho. Minha
irmã Carolina fez os seus 13 anos (Carolina faleceu em 31 de Março de 1992) e era preciso começar a trabalhar. Minha mãe entregou-me, por isso, o cuidado do nossorebanho. Dei a notícia aos meus companheiros e disse-Ihes que não voltava mais a brincar com eles; mas os pequenitos não seconformavam com a separação. Foram pedir à mãe que os deixasse ir comigo, o que Ihes foi negado. Tivemos que nos conformar com a separação. Vinham, então, quase todos os dias, à noitinha, esperar-me ao caminho e lá íamos, então, para a eira, dar algumas corridas, à espera que Nossa Senhora e os Anjos acendessem as suas candeias e as viessem pôr à janela para nos alumiar, como nós dizíamos. Quando não havia luar, dizíamos que a candeia de Nossa Senhora não tinha azeite.
Aos dois pequenitos custava a conformar com a ausência da
sua antiga companheira. Por isso, renovavam continuamente as
instâncias junto de sua mãe, para que os deixasse, também eles,
guardar o seu rebanho. Minha tia, talvez para se ver livre de tantos
pedidos, apesar de serem demasiado pequenos, entregou-lhes a
guarda das suas ovelhinhas. Radiantes de alegria, foram dar-me a
notícia e combinar como juntaríamos todos os dias os nossos rebanhos.
Cada um abriria o seu à hora que Ihe mandasse sua mãe
e o primeiro esperava pelo outro, no Barreiro (assim chamávamos
a uma pequena lagoa que estava ao fundo da serra). Uma vez
juntos, combinávamos qual a pastagem do dia e para lá íamos, tão
felizes e contentes, como se fôssemos para uma festa!
Aqui temos, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, a Jacinta na sua
nova vida de pastorinha. As ovelhinhas ganhámo-las à força de
distribuir por elas as nossas merendas. Por isso, quando chegávamos à pastagem, podíamos brincar descansados, que elas não se afastavam de nós. A Jacinta gostava muito de ouvir o eco da
voz no fundo dos vales. Por isso, um dos nossos entretenimentos
era, no cimo dos montes, sentados no penedo maior, pronunciar
nomes em alta voz. O nome que melhor ecoava era o de Maria. A
Jacinta dizia, às vezes, assim, a Ave Maria inteira, repetindo a palavra seguinte só quando a precedente tinha acabado de ecoar.
Gostávamos também de entoar cânticos. Entre vários profanos,
que infelizmente sabíamos bastantes, a Jacinta preferia o Salve
Nobre Padroeira, Virgem Pura, Anjos, cantai comigo. Éramos, no
entanto, bastante afeiçoados ao baile e qualquer instrumento que
ouvíssemos tocar aos outros pastores era o bastante para nos pôr
a dançar. A Jacinta, apesar de ser tão pequena, tinha, para isso,
uma arte especial.
Tinham-nos recomendado que, depois da merenda, rezássemos
o Terço; mas, como todo o tempo nos parecia pouco, para
brincar, arranjámos uma boa maneira de acabar breve: passávamos
as contas, dizendo somente: Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria!
Quando chegávamos ao fim do mistério, dizíamos, com muita
pausa, a simples palavra: Padre Nosso! E assim, em um abrir e fechar de olhos, como se costuma dizer, tínhamos o nosso Terço
rezado!
A Jacinta gostava também muito de agarrar os cordeirinhos
brancos, sentar-se com eles no colo, abraçá-los, beijá-los e, à noite,
trazê-los ao colo para casa, para que não se cansassem. Um
dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.
– Jacinta – perguntei-lhe – para que vais aí, no meio das ovelhas?
– Para fazer como Nosso Senhor, que, naquele santinho que
me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao
colo.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-PREFÁCIO
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA
PREFÁCIO
1. Oração e Obediência
J. M. J.
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
Depois de ter implorado a protecção dos Santíssimos Corações
de Jesus e Maria, nossa Terna Mãe, de ter pedido luz e graça
aos pés do Sacrário, para não escrever nada que não seja única e
exclusivamente para a glória de Jesus e da Santíssima Virgem,
venho, apesar da minha repugnância, por não poder dizer quase
nada da Jacinta sem directa ou indirectamente falar do meu miserável ser. Obedeço, no entanto, à vontade de V. Ex.cia Rev.ma
que, para mim, é a expressão da vontade de nosso bom Deus.
Começo, pois, este trabalho, pedindo aos Santíssimos Corações
de Jesus e Maria que se dignem abençoá-lo e servir-se deste acto
de obediência para a conversão dos pobres pecadores, pelos quais
esta alma tanto se sacrificou.
Sei que V. Ex.cia Rev.ma não espera de mim um escrito capaz,
pois conhece a minha incapacidade e insuficiência; irei, pois, contando a V. Ex.cia Rev.ma o que me for recordando desta alma, da qual o nosso bom Deus me fez a graça de ser a mais íntima confidente e da qual conservo a maior saudade, estima e respeito, pela alta ideia que tenho da sua santidade.
2. Silêncio sobre alguns assuntos
Apesar, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, da minha boa vontade
em obedecer, peço me concedais reservar algumas coisas que,
porque também me dizem respeito, desejaria fossem lidas somente
nos limiares da eternidade. V. Ex.cia Rev.ma não estranhará que
pretenda guardar segredos e leituras para a vida eterna; pois não
tenho eu a Santíssima Virgem a dar-me o exemplo? Não nos diz o
Sagrado Evangelho que Maria guardava todas as coisas em Seu coração? E quem melhor que este Imaculado Coração nos poderia
descobrir os segredos da Divina Misericórdia? No entanto, lá os
levou guardados como em jardim cerrado, para o palácio do Divino
Rei. Recordo ainda uma máxima que me deu um venerável Sacerdote, quando eu tinha apenas 11 anos. Foi, como tantos outros, fazer mealgumas perguntas. Entre outras, interrogou-me acerca de um assunto do qual eu não queria falar. Depois de ter desfolhado todo o seu reportório de interrogações, sem conseguir obter, sobre o tal assunto, uma resposta satisfatória, compreendendo, talvez, que tocava um assunto demasiado melindroso, o venerável Sacerdote, abençoando-me, disse:
– Faz bem, minha filhinha, porque o segredo da Filha do Rei
deve permanecer oculto no fundo do seu coração.
Não entendi, por então, a significação destas palavras, mas
compreendi que aprovava o meu procedimento e, como não as
esqueci, compreendo-as agora. Este venerável Sacerdote era então
Vigário em Torres Novas. Mal sua Rev.cia sabe quanto bem
estas breves palavras têm feito à minha alma e por elas conservo
de sua Rev.cia uma grata recordação.
Consultei, no entanto, um dia, um Santo Sacerdote, a respeito
desta reserva, porque não sabia que responder, quando me
perguntassem se a Santíssima Virgem me tinha dito mais alguma
coisa. Este Senhor, que era então Vigário do Olival, disse-nos:
– Fazeis bem, meus filhinhos, em guardar para Deus e para
vós o segredo das vossas almas; quando vos fizerem essa pergunta,
respondei: Sim, disse; mas é segredo. Se vos fizerem mais
perguntas a respeito disto, pensai no segredo que vos comunicou
essa Senhora e dizei: Nossa Senhora disse-nos que não disséssemos
a ninguém, por isso não o dizemos. Assim guardais o vosso
segredo ao abrigo do da Santíssima Virgem.
Que bem compreendi a explicação e direcção deste venerável
ancião!
Estou já gastando demasiado tempo com estes prelúdios e V.
Ex.cia Rev.ma dirá que não sabe a que propósito vêm aqui.
Vou ver se dou começo à narração do que me lembro da vida da
Jacinta. Como não disponho de tempo livre, durante as horas
silenciosas de trabalho, num bocado de papel, com um lápis
escondido debaixo da costura, irei recordando e apontando o que
os Santíssimos Corações de Jesus e Maria quiserem fazer-me
recordar.
3. Prece à Jacinta
Ó tu que a terra
Passaste voando,
Jacinta querida,
Numa dor intensa,
Jesus amando,
Não esqueças a prece
Que eu te pedia.
Sê minha amiga
Junto do trono
Da Virgem Maria.
Lírio de candura,
Pérola brilhante
Oh! lá no Céu
Onde vives triunfante,
Serafim de amor,
Com teu Irmãozinho
Roga por mim
Aos pés do Senhor.
PREFÁCIO
1. Oração e Obediência
J. M. J.
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo
Depois de ter implorado a protecção dos Santíssimos Corações
de Jesus e Maria, nossa Terna Mãe, de ter pedido luz e graça
aos pés do Sacrário, para não escrever nada que não seja única e
exclusivamente para a glória de Jesus e da Santíssima Virgem,
venho, apesar da minha repugnância, por não poder dizer quase
nada da Jacinta sem directa ou indirectamente falar do meu miserável ser. Obedeço, no entanto, à vontade de V. Ex.cia Rev.ma
que, para mim, é a expressão da vontade de nosso bom Deus.
Começo, pois, este trabalho, pedindo aos Santíssimos Corações
de Jesus e Maria que se dignem abençoá-lo e servir-se deste acto
de obediência para a conversão dos pobres pecadores, pelos quais
esta alma tanto se sacrificou.
Sei que V. Ex.cia Rev.ma não espera de mim um escrito capaz,
pois conhece a minha incapacidade e insuficiência; irei, pois, contando a V. Ex.cia Rev.ma o que me for recordando desta alma, da qual o nosso bom Deus me fez a graça de ser a mais íntima confidente e da qual conservo a maior saudade, estima e respeito, pela alta ideia que tenho da sua santidade.
2. Silêncio sobre alguns assuntos
Apesar, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, da minha boa vontade
em obedecer, peço me concedais reservar algumas coisas que,
porque também me dizem respeito, desejaria fossem lidas somente
nos limiares da eternidade. V. Ex.cia Rev.ma não estranhará que
pretenda guardar segredos e leituras para a vida eterna; pois não
tenho eu a Santíssima Virgem a dar-me o exemplo? Não nos diz o
Sagrado Evangelho que Maria guardava todas as coisas em Seu coração? E quem melhor que este Imaculado Coração nos poderia
descobrir os segredos da Divina Misericórdia? No entanto, lá os
levou guardados como em jardim cerrado, para o palácio do Divino
Rei. Recordo ainda uma máxima que me deu um venerável Sacerdote, quando eu tinha apenas 11 anos. Foi, como tantos outros, fazer mealgumas perguntas. Entre outras, interrogou-me acerca de um assunto do qual eu não queria falar. Depois de ter desfolhado todo o seu reportório de interrogações, sem conseguir obter, sobre o tal assunto, uma resposta satisfatória, compreendendo, talvez, que tocava um assunto demasiado melindroso, o venerável Sacerdote, abençoando-me, disse:
– Faz bem, minha filhinha, porque o segredo da Filha do Rei
deve permanecer oculto no fundo do seu coração.
Não entendi, por então, a significação destas palavras, mas
compreendi que aprovava o meu procedimento e, como não as
esqueci, compreendo-as agora. Este venerável Sacerdote era então
Vigário em Torres Novas. Mal sua Rev.cia sabe quanto bem
estas breves palavras têm feito à minha alma e por elas conservo
de sua Rev.cia uma grata recordação.
Consultei, no entanto, um dia, um Santo Sacerdote, a respeito
desta reserva, porque não sabia que responder, quando me
perguntassem se a Santíssima Virgem me tinha dito mais alguma
coisa. Este Senhor, que era então Vigário do Olival, disse-nos:
– Fazeis bem, meus filhinhos, em guardar para Deus e para
vós o segredo das vossas almas; quando vos fizerem essa pergunta,
respondei: Sim, disse; mas é segredo. Se vos fizerem mais
perguntas a respeito disto, pensai no segredo que vos comunicou
essa Senhora e dizei: Nossa Senhora disse-nos que não disséssemos
a ninguém, por isso não o dizemos. Assim guardais o vosso
segredo ao abrigo do da Santíssima Virgem.
Que bem compreendi a explicação e direcção deste venerável
ancião!
Estou já gastando demasiado tempo com estes prelúdios e V.
Ex.cia Rev.ma dirá que não sabe a que propósito vêm aqui.
Vou ver se dou começo à narração do que me lembro da vida da
Jacinta. Como não disponho de tempo livre, durante as horas
silenciosas de trabalho, num bocado de papel, com um lápis
escondido debaixo da costura, irei recordando e apontando o que
os Santíssimos Corações de Jesus e Maria quiserem fazer-me
recordar.
3. Prece à Jacinta
Ó tu que a terra
Passaste voando,
Jacinta querida,
Numa dor intensa,
Jesus amando,
Não esqueças a prece
Que eu te pedia.
Sê minha amiga
Junto do trono
Da Virgem Maria.
Lírio de candura,
Pérola brilhante
Oh! lá no Céu
Onde vives triunfante,
Serafim de amor,
Com teu Irmãozinho
Roga por mim
Aos pés do Senhor.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -PRIMEIRA MEMÓRIA-Introdução
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
PRIMEIRA MEMÓRIA
Introdução
Não é certamente o primeiro escrito de Lúcia; mas sim o seu primeiro escrito extenso. Antes dele, temos cartas, muitas cartas, interrogatórios, relatos, etc. Mas, agora, encontramo-nos diante dum documento extenso e importante.
Se Lúcia nunca escreveu por vontade própria, como nasceu este
documento?
No dia 12 de Setembro de 1935 eram trasladados, do cemitério de
Vila Nova de Ourém para o de Fátima, os restos mortais de Jacinta.
Nesta ocasião, tiraram-se diversas fotografias ao cadáver; algumas delas foram enviadas pelo Sr. Bispo à Irmã Lúcia que, então, se encontrava em Pontevedra. Agradecendo essa lembrança, com data de 17 de Novembro de 1935, entre outras coisas, Lúcia dizia: «Agradeço reconhecidíssima as fotografias. Quanto as estimo, não posso dizer. Em especial à de Jacinta eu queria, mesmo à fotografia, tirar aqueles panos que a cobrem, para vê-la toda; estava como numa impaciência de descobrir o rosto do cadáver, sem me dar conta de que era um retrato; estava meio abstracta, tal era a minha alegria de voltar a ver a mais íntima amiga de criança. Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá a auréola da santidade. Ela era criança só de anos. No demais, sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à
Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício...»
Estas recordações tão vivas de Lúcia sobre a sua primita Jacinta
induziram o Sr. Bispo a mandar-lhe escrever tudo o que se recordasse dela. E, com efeito, o escrito, começado na segunda semana de Dezembro, estava terminado no dia de Natal de 1935. Quer dizer, em menos de quinze dias, Lúcia redigia este escrito que conserva uma unidade perfeita e faz um retrato de Jacinta, em que o seu íntimo fica iluminado com essa luz de Fátima, que é o Coração Imaculado de Maria.
O conteúdo deste escrito dá-nos, sobretudo, um retrato de Jacinta,
tirado das recordações de Lúcia. A finalidade dele não era, portanto, dar-nos uma «história» das Aparições. Estas aparecem como uma moldura necessária, em que se destaca a figura de Jacinta.
O estilo é sempre simples e familiar; e até, diríamos, em certas ocasiões, «infantil», porque o ambiente e o assunto assim o exigiam. Lúcia nunca perdeu o sentido realista das coisas que tratava.
PRIMEIRA MEMÓRIA
Introdução
Não é certamente o primeiro escrito de Lúcia; mas sim o seu primeiro escrito extenso. Antes dele, temos cartas, muitas cartas, interrogatórios, relatos, etc. Mas, agora, encontramo-nos diante dum documento extenso e importante.
Se Lúcia nunca escreveu por vontade própria, como nasceu este
documento?
No dia 12 de Setembro de 1935 eram trasladados, do cemitério de
Vila Nova de Ourém para o de Fátima, os restos mortais de Jacinta.
Nesta ocasião, tiraram-se diversas fotografias ao cadáver; algumas delas foram enviadas pelo Sr. Bispo à Irmã Lúcia que, então, se encontrava em Pontevedra. Agradecendo essa lembrança, com data de 17 de Novembro de 1935, entre outras coisas, Lúcia dizia: «Agradeço reconhecidíssima as fotografias. Quanto as estimo, não posso dizer. Em especial à de Jacinta eu queria, mesmo à fotografia, tirar aqueles panos que a cobrem, para vê-la toda; estava como numa impaciência de descobrir o rosto do cadáver, sem me dar conta de que era um retrato; estava meio abstracta, tal era a minha alegria de voltar a ver a mais íntima amiga de criança. Tenho esperança de que o Senhor, para glória da Santíssima Virgem, lhe concederá a auréola da santidade. Ela era criança só de anos. No demais, sabia já praticar a virtude e mostrar a Deus e à
Santíssima Virgem o seu amor, pela prática do sacrifício...»
Estas recordações tão vivas de Lúcia sobre a sua primita Jacinta
induziram o Sr. Bispo a mandar-lhe escrever tudo o que se recordasse dela. E, com efeito, o escrito, começado na segunda semana de Dezembro, estava terminado no dia de Natal de 1935. Quer dizer, em menos de quinze dias, Lúcia redigia este escrito que conserva uma unidade perfeita e faz um retrato de Jacinta, em que o seu íntimo fica iluminado com essa luz de Fátima, que é o Coração Imaculado de Maria.
O conteúdo deste escrito dá-nos, sobretudo, um retrato de Jacinta,
tirado das recordações de Lúcia. A finalidade dele não era, portanto, dar-nos uma «história» das Aparições. Estas aparecem como uma moldura necessária, em que se destaca a figura de Jacinta.
O estilo é sempre simples e familiar; e até, diríamos, em certas ocasiões, «infantil», porque o ambiente e o assunto assim o exigiam. Lúcia nunca perdeu o sentido realista das coisas que tratava.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA -TEMA DAS MEMÓRIAS
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
TEMA DAS MEMÓRIAS
Na introdução de cada Memória indicaremos o tema central
ao qual ela se refere.
No entanto, parece-nos importante sublinhar desde já o objectivo principal das Memórias da Irmã Lúcia: revelar a vida heróica dos dois Videntes já falecidos, hoje Bem-Aventurados
Francisco e Jacinta, em resposta aos pedidos da Santíssima
Virgem. Não há dúvida de que os dois irmãozinhos cativam logo
desde o primeiro contacto que com eles se tenha, pela sua
ingenuidade e simpatia natural. Isto ainda antes de lhes conhecer
as belezas e riquezas interiores da alma. Basta o seu retrato exterior
para nos prender. E porque entendemos que pode ser esse o
primeiro passo para mais nos afeiçoarmos aos Pastorinhos, com
uma afeição que leve à imitação, vamos deixar aqui a descrição
histórica mais antiga que supomos deles haver.
Referimo-nos à célebre carta do Dr. Carlos de Azevedo Mendes
para a sua futura esposa, em que lhe descreve as impressões duma
visita que fez a Aljustrel e à Cova da Iria, no dia 7 de Setembro de
1917. Pouco diz do Francisco, o retrato é curto, mas completo e
expressivo: “...Chegou o Francisco. Carapuço enterrado pela
cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, calças
justas, enfim um homem em miniatura. Bela cara de rapaz! Olhar
vivo e cara agarotada. Com ar desempenado responde às minhas
perguntas”.
Vinte dias depois, a 27 de Setembro, também o Sr. Cónego
Formigão foi interrogar as crianças a Aljustrel. O primeiro a ser
ouvido foi o Francisco. Não nos interessa por agora o teor das
respostas, mas apenas estas impressões do erudito e piedoso
sacerdote: “Rapaz de nove anos de idade, que entra com certo
desembaraço no quarto onde estávamos, conservando o barrete
na cabeça, decerto por não se lembrar que devia descobrir-se.
Connvidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo
imediatamente e sem nenhuma relutância”.
Estes dois excertos de documentos autênticos e primitivos
mostram-nos que o Francisco no tempo das Aparições era um
pastorinho alegre, vivo e desembaraçado, um perfeito “serrano”,
sem preocupações, taras ou complexos de qualquer espécie.
Vejamos agora a descrição que o Dr. Carlos Mendes faz da
Jacinta. O retrato é um bocadinho mais desenvolvido que o do
Francisco: A Jacinta “muito pequerrucha, muito encolhidita, foi-se
chegando para o pé de mim. Sentei-a em cima de uma arca e eu
ao pé. Afirmo-te que é um anjo... um lenço com ramagem
encarniçada, embrulhado na cabeça, com as pontas atadas atrás.
Lenço velhito e já roto. Um casaquito que também não primava
muito pela limpeza. Uma saia sobre o encarnado, mas com uma
roda enorme, à moda da terra. Aqui tens o traje do nosso anjito.
Quereria descrever-te a carita, mas creio bem que nada conseguirei dizer-te aproximado ao menos. O lenço, da maneira como o usava, ainda mais realçava as feições. Os olhos negros de uma vivacidade encantadora, uma expressão angélica, de umabondade que nos seduz, um todo extraordinário que, não sei porquê, nos atrai. Muito envergonhadita, com dificuldade ouvíamos o pouco que falava, em resposta às minhas perguntas. Depois de durante algum tempo a ter entretido, conversando e (não te rias!) brincando, chegou o Francisco... A Jacinta começa a ganhar confiança. Pouco depois chega a Lúcia. Não imaginas a alegria da Jacinta quando aviu! Toda ela riu, correu para ela e nunca mais a largou. Era um quadro lindo...”
O depoimento do Sr. Cónego Formigão, mais reduzido, condiz
perfeitamente com o anterior: “Chama-se Jacinta de Jesus, tem
sete anos de idade... Bastante alta para a sua idade, um pouco
delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado,
tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura
dos artelhos, o seu aspecto é o duma criança saudável, acusando
perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com
a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e
não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço,
respondendo com monossílabos e num tom de voz quase
imperceptível às perguntas que lhe dirijo”.
TEMA DAS MEMÓRIAS
Na introdução de cada Memória indicaremos o tema central
ao qual ela se refere.
No entanto, parece-nos importante sublinhar desde já o objectivo principal das Memórias da Irmã Lúcia: revelar a vida heróica dos dois Videntes já falecidos, hoje Bem-Aventurados
Francisco e Jacinta, em resposta aos pedidos da Santíssima
Virgem. Não há dúvida de que os dois irmãozinhos cativam logo
desde o primeiro contacto que com eles se tenha, pela sua
ingenuidade e simpatia natural. Isto ainda antes de lhes conhecer
as belezas e riquezas interiores da alma. Basta o seu retrato exterior
para nos prender. E porque entendemos que pode ser esse o
primeiro passo para mais nos afeiçoarmos aos Pastorinhos, com
uma afeição que leve à imitação, vamos deixar aqui a descrição
histórica mais antiga que supomos deles haver.
Referimo-nos à célebre carta do Dr. Carlos de Azevedo Mendes
para a sua futura esposa, em que lhe descreve as impressões duma
visita que fez a Aljustrel e à Cova da Iria, no dia 7 de Setembro de
1917. Pouco diz do Francisco, o retrato é curto, mas completo e
expressivo: “...Chegou o Francisco. Carapuço enterrado pela
cabeça, jaleca muito curta, colete deixando ver a camisa, calças
justas, enfim um homem em miniatura. Bela cara de rapaz! Olhar
vivo e cara agarotada. Com ar desempenado responde às minhas
perguntas”.
Vinte dias depois, a 27 de Setembro, também o Sr. Cónego
Formigão foi interrogar as crianças a Aljustrel. O primeiro a ser
ouvido foi o Francisco. Não nos interessa por agora o teor das
respostas, mas apenas estas impressões do erudito e piedoso
sacerdote: “Rapaz de nove anos de idade, que entra com certo
desembaraço no quarto onde estávamos, conservando o barrete
na cabeça, decerto por não se lembrar que devia descobrir-se.
Connvidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo
imediatamente e sem nenhuma relutância”.
Estes dois excertos de documentos autênticos e primitivos
mostram-nos que o Francisco no tempo das Aparições era um
pastorinho alegre, vivo e desembaraçado, um perfeito “serrano”,
sem preocupações, taras ou complexos de qualquer espécie.
Vejamos agora a descrição que o Dr. Carlos Mendes faz da
Jacinta. O retrato é um bocadinho mais desenvolvido que o do
Francisco: A Jacinta “muito pequerrucha, muito encolhidita, foi-se
chegando para o pé de mim. Sentei-a em cima de uma arca e eu
ao pé. Afirmo-te que é um anjo... um lenço com ramagem
encarniçada, embrulhado na cabeça, com as pontas atadas atrás.
Lenço velhito e já roto. Um casaquito que também não primava
muito pela limpeza. Uma saia sobre o encarnado, mas com uma
roda enorme, à moda da terra. Aqui tens o traje do nosso anjito.
Quereria descrever-te a carita, mas creio bem que nada conseguirei dizer-te aproximado ao menos. O lenço, da maneira como o usava, ainda mais realçava as feições. Os olhos negros de uma vivacidade encantadora, uma expressão angélica, de umabondade que nos seduz, um todo extraordinário que, não sei porquê, nos atrai. Muito envergonhadita, com dificuldade ouvíamos o pouco que falava, em resposta às minhas perguntas. Depois de durante algum tempo a ter entretido, conversando e (não te rias!) brincando, chegou o Francisco... A Jacinta começa a ganhar confiança. Pouco depois chega a Lúcia. Não imaginas a alegria da Jacinta quando aviu! Toda ela riu, correu para ela e nunca mais a largou. Era um quadro lindo...”
O depoimento do Sr. Cónego Formigão, mais reduzido, condiz
perfeitamente com o anterior: “Chama-se Jacinta de Jesus, tem
sete anos de idade... Bastante alta para a sua idade, um pouco
delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado,
tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura
dos artelhos, o seu aspecto é o duma criança saudável, acusando
perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com
a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e
não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço,
respondendo com monossílabos e num tom de voz quase
imperceptível às perguntas que lhe dirijo”.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-GÉNERO LITERÁRIO
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
GÉNERO LITERÁRIO DAS «MEMÓRIAS»
Aos escritos que, felizmente, o leitor vai ter nas suas mãos,
chamamos «Memórias» porque, efectivamente, mais se parecem
a este género literário, não obstante a sua aparência de «Cartas»
ou, até, em certos momentos, de «autobiografia».
Evidentemente que a Irmã Lúcia não tinha qualquer pretensão
literária ao escrever estes admiráveis documentos. Ela escrevia
porque Iho mandavam. E pode afirmar-se que Lúcia nunca escreveunada por vontade própria. Isto não quer dizer que, às vezes, ela mesma, no decurso da sua obra, não se sinta arrebatada pelos assuntos que toca, dando impressão de que «faz literatura». Mas será sempre uma literatura espontânea e clara, em que a elegância é uma consequência e não uma preocupação.
Ora bem: muito menos podia ter uma preocupação do género
literário, e não sabia absolutamente o que podia significar «memória », senão como faculdade de recordar o passado. Ela mesma nos diz, algures, que, não sabendo como cumprir o mandato recebido de escrever sobre a vida da Jacinta, ocorreu-Ihe fazê-lo com toda a naturalidade, dirigindo-se ao Sr. Bispo, como quem conta uma história com as recordações que conserva. Portanto, não há que tomar estes escritos como «Cartas» embora extensas, que
escreve ao Sr. Bispo de Leiria. Isso foi uma pura ficção, neste caso
«literária», para sair do apuro. Na realidade, o que Lúcia intenta é
escrever as suas «recordações». E a isto se chama, com propriedade, «Memórias», porque, efectivamente, se trata de um género literário em que o autor pretende comunicar as suas recordações, referentes a si mesmo (ou a outros), aos seus próprios sucessosou aos sucessos acontecidos a outros.
Não obstante, não se trata também falando propriamente – de «Biografia» ou de «Autobiografia». Lúcia não o pretendeu, nem
podia pretendê-lo, dar-nos uma biografia de Jacinta e de Francisco
e, naturalmente, nunca pretendeu dar-nos uma «auto-biografia».
Trata-se simplesmente de uma ordenação de recordações à
volta dos principais factos da vida de Jacinta e de Francisco, e
isso, seguramente, contra a sua própria vontade.
A biografia e a autobiografia distinguem-se da «Memória»; esta
não pretende comunicar senão «recordações»; enquanto que os
outros géneros literários pretendem algo de mais completo, sistemático; supõem, mais do que a simples recordação, uma investigação de documentos auxiliares.
Mas Lúcia, nestas Memórias, não necessitou mais do que olhar
para o passado e recordá-lo. E que recordação! Porque, ou se tratava da vida de seus primos e, então, tratava-se da sua própria vida; ou se tratava de tudo quanto se referia às Aparições da «Senhora» e, então, tudo era contemplado, mais do que uma simples recordação, como uma presença gravada a fogo sobre a sua alma. Ela mesma nos adverte que «essas coisas vão-se gravando tão nitidamente na nossa alma, que não é fácil esquecê-las.» Por isso, estas «Memórias» da Irmã Lúcia são, sobretudo, uma «releitura» de
caracteres impressos, para sempre, no mais fundo do espírito da
Autora. Ela, mais do que «recordar», parece que está vivendo; tal
é a facilidade da recordação, que se converte em «leitura interior»
GÉNERO LITERÁRIO DAS «MEMÓRIAS»
Aos escritos que, felizmente, o leitor vai ter nas suas mãos,
chamamos «Memórias» porque, efectivamente, mais se parecem
a este género literário, não obstante a sua aparência de «Cartas»
ou, até, em certos momentos, de «autobiografia».
Evidentemente que a Irmã Lúcia não tinha qualquer pretensão
literária ao escrever estes admiráveis documentos. Ela escrevia
porque Iho mandavam. E pode afirmar-se que Lúcia nunca escreveunada por vontade própria. Isto não quer dizer que, às vezes, ela mesma, no decurso da sua obra, não se sinta arrebatada pelos assuntos que toca, dando impressão de que «faz literatura». Mas será sempre uma literatura espontânea e clara, em que a elegância é uma consequência e não uma preocupação.
Ora bem: muito menos podia ter uma preocupação do género
literário, e não sabia absolutamente o que podia significar «memória », senão como faculdade de recordar o passado. Ela mesma nos diz, algures, que, não sabendo como cumprir o mandato recebido de escrever sobre a vida da Jacinta, ocorreu-Ihe fazê-lo com toda a naturalidade, dirigindo-se ao Sr. Bispo, como quem conta uma história com as recordações que conserva. Portanto, não há que tomar estes escritos como «Cartas» embora extensas, que
escreve ao Sr. Bispo de Leiria. Isso foi uma pura ficção, neste caso
«literária», para sair do apuro. Na realidade, o que Lúcia intenta é
escrever as suas «recordações». E a isto se chama, com propriedade, «Memórias», porque, efectivamente, se trata de um género literário em que o autor pretende comunicar as suas recordações, referentes a si mesmo (ou a outros), aos seus próprios sucessosou aos sucessos acontecidos a outros.
Não obstante, não se trata também falando propriamente – de «Biografia» ou de «Autobiografia». Lúcia não o pretendeu, nem
podia pretendê-lo, dar-nos uma biografia de Jacinta e de Francisco
e, naturalmente, nunca pretendeu dar-nos uma «auto-biografia».
Trata-se simplesmente de uma ordenação de recordações à
volta dos principais factos da vida de Jacinta e de Francisco, e
isso, seguramente, contra a sua própria vontade.
A biografia e a autobiografia distinguem-se da «Memória»; esta
não pretende comunicar senão «recordações»; enquanto que os
outros géneros literários pretendem algo de mais completo, sistemático; supõem, mais do que a simples recordação, uma investigação de documentos auxiliares.
Mas Lúcia, nestas Memórias, não necessitou mais do que olhar
para o passado e recordá-lo. E que recordação! Porque, ou se tratava da vida de seus primos e, então, tratava-se da sua própria vida; ou se tratava de tudo quanto se referia às Aparições da «Senhora» e, então, tudo era contemplado, mais do que uma simples recordação, como uma presença gravada a fogo sobre a sua alma. Ela mesma nos adverte que «essas coisas vão-se gravando tão nitidamente na nossa alma, que não é fácil esquecê-las.» Por isso, estas «Memórias» da Irmã Lúcia são, sobretudo, uma «releitura» de
caracteres impressos, para sempre, no mais fundo do espírito da
Autora. Ela, mais do que «recordar», parece que está vivendo; tal
é a facilidade da recordação, que se converte em «leitura interior»
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA-EM TORNO DA FISIONOMIA LITERÁRIA DE LÚCIA
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
EM TORNO DA FISIONOMIA LITERÁRIA DE LÚCIA
De toda a historiografia sobre Fátima, deve dizer-se aquilo que,
entusiasmado com o seu livro, escrevia o escritor Antero de
Figueiredo: «Mas a luz deste livro, a grande luz, a luz bela, essa foi
recebida directa, da alma cândida e profunda, admiravelmente simples, da vidente Lúcia de Jesus.»
Comecemos por dizer que os escritos de Lúcia sempre se ressentiram da sua falta de formação cultural suficiente. Mas, o que
noutros teria sido um defeito irreparável, em Lúcia foi suprido pelos seus grandes dotes naturais. Lúcia confessa singelamente e muitas vezes a sua «incapacidade e insuficiência» chegando a dizer
literalmente: «Nem sequer a caligrafia sei fazer capazmente». Contudo, essas faltas de correcção ortográfica não impedirão nunca
uma síntese clara e definida, atingindo, por vezes, uma redacção
elegante e firme.
Os seus dotes literários poderiam resumir-se assim: clareza e
precisão de conceitos; sentimentos delicados e profundos; uma
rica imaginação; um bom humor artístico que dá graça ao relato,
uma ironia delicada que nunca fere; uma extraordinária memória
para fixar detalhes e circunstâncias; os diálogos vêm-Ihe de dentro,
como se as pessoas estivessem presentes. Contempla imaginariamente a paisagem, como se a estivesse gozando. Sabe descrever os caracteres dos primos, dos confessores, dos seus personagens em geral, com rasgos que manifestam uma penetração
psicológica não comum. Dá-se conta perfeitamente das suas divagações e sabe voltar, com graça, ao ponto de partida.
É verdade que, por vezes, o estilo podia ressentir-se menos
das suas leituras piedosas, amenas e religiosas. Mas a sua naturalidade, vivacidade e alegria, sempre acabam por triunfar. Quem não recorda a sua despedida nocturna dos lugares queridos das Aparições, na véspera da sua partida para o Porto? Como não
admirar a graça com que se fixa nos sapatos, com fivelas de prata,
de tal cónego? Como não sentir-se arrebatado pela transcrição
daquelas «Cantigas de Serrana»?
Lúcia sabe dizer o que quer e di-lo como quer. E é tal a posse
interior, que consegue conjugar as ocupações servis absorventes
com o trabalho de redacção dos seus escritos, sem perder o fio da
narração ordenada, nem a lógica das suas reflexões. Isto não pode
dar-se senão quando se possui um grande equilíbrio de alma.
Lúcia, na verdade, «sente-se inspirada» ao escrever; assim o diz em várias ocasiões... Mas, por favor, não pode tomar-se essa
expressão em sentido rigoroso, no género profético, como o fez
algum crítico quezilento; é sua convicção de que uma presença
especial de Deus está sobre ela nos momentos de redacção. Sente-
se, pois, ...«assistida» por Deus ao escrever. Mas uma leitura
atenta mostra claramente que Lúcia não toma essas expressões
no seu sentido rigoroso. É ela própria que, respondendo expressamente a isso, declara: «A palavra “inspirados” quer dizer que, interiormente, nos sentíamos movidos a isso.»
Não se trata, pois, de uma «inerrância» semelhante à da Sagrada
Escritura. Lúcia pode enganar-se na tradução mística das
suas experiências, por causa da dificuldade própria de «interpretação». Algumas vezes, ela mesma duvida se será o Senhor quem Ihe fala; outras, confessa que é impossível revelar algo do percebido na graça mística. De facto, uma crítica inteligente encontraalguns erros meramente acidentais de datas, de factos, de circunstâncias. E até na própria ocasião de assegurar-nos que nostransmite «ipsissima verba» as mesmas palavras da Virgem, isso não significa senão que, na verdade, ela põe nisso toda a sua sinceridade.
Daquilo que Lúcia está sempre segura – e assim o diz – é do sentido do que transmite.
Quanto a datas, é já conhecida a insegurança de Lúcia. Umas
vezes porque, de pequenos, ela e seus primos não sabiam contar
nem os dias, nem muito menos os meses, não digamos os anos.
Assim, Lúcia não se recorda das datas das aparições do Anjo, e
tem que recordá-las aproximadamente pelas estações que, estas
sim, se Ihes gravavam bem aos pequenos serranitos. Mas a principal razão desta falta de memória cronológica está, certamente, no carácter realista das recordações de Lúcia, sempre dirigida ao essencial.
Além disso, o leitor não deve esquecer, na leitura das Memórias
de Lúcia, uma regra geral de interpretação das traduções que os místicos fazem das suas experiências do sobrenatural: trata-se sempre de «traduções» nas quais não é necessário admitir
que tudo, literalmente, corresponda às locuções divinas. Isso não
quer dizer, por outro lado, que, se a alguém se deve dar crédito sobre esses fenómenos maravilhosos, não seja, naturalmente, àquele que os experimentou.
Queremos fazer uma última advertência, para que o leitor entre
mais bem preparado na leitura destas páginas maravilhosas. É
necessário distinguir entre aquilo que a Irmã Lúcia nos apresenta
como Mensagem do Céu e aquilo que ela mesma nos apresenta
como «reflexão» ou «interpretação sua». O primeiro, embora dentro das dificuldades da tradução mística, oferece maiores garantias de veracidade que o segundo. Importa supor que, se Deus
apresentou uns sinais tão evidentes para fazer conhecer a Sua
presença nos acontecimentos de Fátima, também interveio de um
modo especial para que a «Sua» Mensagem, através da Virgem,
fosse bem traduzida pelos videntes para isso escolhidos. Algo de
parecido ao que dizemos sobre a Igreja – se Deus entregou à Sua
Igreja uma Mensagem de salvação, há que, pelo menos, aceitar
que A dotou de um carisma de verdade, para que nos transmita
essa Mensagem de uma maneira infalível.
Mas Lúcia apresenta-se muitas vezes como «reflectindo» sobre
as palavras e os acontecimentos... certamente é um intérprete
privilegiado, mas sempre e apenas «um» intérprete. Portanto, neste
terreno, as palavras da Irmã Lúcia já não têm razão para exigir
aquela assistência especial que reclamamos para o primeiro caso.
EM TORNO DA FISIONOMIA LITERÁRIA DE LÚCIA
De toda a historiografia sobre Fátima, deve dizer-se aquilo que,
entusiasmado com o seu livro, escrevia o escritor Antero de
Figueiredo: «Mas a luz deste livro, a grande luz, a luz bela, essa foi
recebida directa, da alma cândida e profunda, admiravelmente simples, da vidente Lúcia de Jesus.»
Comecemos por dizer que os escritos de Lúcia sempre se ressentiram da sua falta de formação cultural suficiente. Mas, o que
noutros teria sido um defeito irreparável, em Lúcia foi suprido pelos seus grandes dotes naturais. Lúcia confessa singelamente e muitas vezes a sua «incapacidade e insuficiência» chegando a dizer
literalmente: «Nem sequer a caligrafia sei fazer capazmente». Contudo, essas faltas de correcção ortográfica não impedirão nunca
uma síntese clara e definida, atingindo, por vezes, uma redacção
elegante e firme.
Os seus dotes literários poderiam resumir-se assim: clareza e
precisão de conceitos; sentimentos delicados e profundos; uma
rica imaginação; um bom humor artístico que dá graça ao relato,
uma ironia delicada que nunca fere; uma extraordinária memória
para fixar detalhes e circunstâncias; os diálogos vêm-Ihe de dentro,
como se as pessoas estivessem presentes. Contempla imaginariamente a paisagem, como se a estivesse gozando. Sabe descrever os caracteres dos primos, dos confessores, dos seus personagens em geral, com rasgos que manifestam uma penetração
psicológica não comum. Dá-se conta perfeitamente das suas divagações e sabe voltar, com graça, ao ponto de partida.
É verdade que, por vezes, o estilo podia ressentir-se menos
das suas leituras piedosas, amenas e religiosas. Mas a sua naturalidade, vivacidade e alegria, sempre acabam por triunfar. Quem não recorda a sua despedida nocturna dos lugares queridos das Aparições, na véspera da sua partida para o Porto? Como não
admirar a graça com que se fixa nos sapatos, com fivelas de prata,
de tal cónego? Como não sentir-se arrebatado pela transcrição
daquelas «Cantigas de Serrana»?
Lúcia sabe dizer o que quer e di-lo como quer. E é tal a posse
interior, que consegue conjugar as ocupações servis absorventes
com o trabalho de redacção dos seus escritos, sem perder o fio da
narração ordenada, nem a lógica das suas reflexões. Isto não pode
dar-se senão quando se possui um grande equilíbrio de alma.
Lúcia, na verdade, «sente-se inspirada» ao escrever; assim o diz em várias ocasiões... Mas, por favor, não pode tomar-se essa
expressão em sentido rigoroso, no género profético, como o fez
algum crítico quezilento; é sua convicção de que uma presença
especial de Deus está sobre ela nos momentos de redacção. Sente-
se, pois, ...«assistida» por Deus ao escrever. Mas uma leitura
atenta mostra claramente que Lúcia não toma essas expressões
no seu sentido rigoroso. É ela própria que, respondendo expressamente a isso, declara: «A palavra “inspirados” quer dizer que, interiormente, nos sentíamos movidos a isso.»
Não se trata, pois, de uma «inerrância» semelhante à da Sagrada
Escritura. Lúcia pode enganar-se na tradução mística das
suas experiências, por causa da dificuldade própria de «interpretação». Algumas vezes, ela mesma duvida se será o Senhor quem Ihe fala; outras, confessa que é impossível revelar algo do percebido na graça mística. De facto, uma crítica inteligente encontraalguns erros meramente acidentais de datas, de factos, de circunstâncias. E até na própria ocasião de assegurar-nos que nostransmite «ipsissima verba» as mesmas palavras da Virgem, isso não significa senão que, na verdade, ela põe nisso toda a sua sinceridade.
Daquilo que Lúcia está sempre segura – e assim o diz – é do sentido do que transmite.
Quanto a datas, é já conhecida a insegurança de Lúcia. Umas
vezes porque, de pequenos, ela e seus primos não sabiam contar
nem os dias, nem muito menos os meses, não digamos os anos.
Assim, Lúcia não se recorda das datas das aparições do Anjo, e
tem que recordá-las aproximadamente pelas estações que, estas
sim, se Ihes gravavam bem aos pequenos serranitos. Mas a principal razão desta falta de memória cronológica está, certamente, no carácter realista das recordações de Lúcia, sempre dirigida ao essencial.
Além disso, o leitor não deve esquecer, na leitura das Memórias
de Lúcia, uma regra geral de interpretação das traduções que os místicos fazem das suas experiências do sobrenatural: trata-se sempre de «traduções» nas quais não é necessário admitir
que tudo, literalmente, corresponda às locuções divinas. Isso não
quer dizer, por outro lado, que, se a alguém se deve dar crédito sobre esses fenómenos maravilhosos, não seja, naturalmente, àquele que os experimentou.
Queremos fazer uma última advertência, para que o leitor entre
mais bem preparado na leitura destas páginas maravilhosas. É
necessário distinguir entre aquilo que a Irmã Lúcia nos apresenta
como Mensagem do Céu e aquilo que ela mesma nos apresenta
como «reflexão» ou «interpretação sua». O primeiro, embora dentro das dificuldades da tradução mística, oferece maiores garantias de veracidade que o segundo. Importa supor que, se Deus
apresentou uns sinais tão evidentes para fazer conhecer a Sua
presença nos acontecimentos de Fátima, também interveio de um
modo especial para que a «Sua» Mensagem, através da Virgem,
fosse bem traduzida pelos videntes para isso escolhidos. Algo de
parecido ao que dizemos sobre a Igreja – se Deus entregou à Sua
Igreja uma Mensagem de salvação, há que, pelo menos, aceitar
que A dotou de um carisma de verdade, para que nos transmita
essa Mensagem de uma maneira infalível.
Mas Lúcia apresenta-se muitas vezes como «reflectindo» sobre
as palavras e os acontecimentos... certamente é um intérprete
privilegiado, mas sempre e apenas «um» intérprete. Portanto, neste
terreno, as palavras da Irmã Lúcia já não têm razão para exigir
aquela assistência especial que reclamamos para o primeiro caso.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - BIOGRAFIA DE LÚCIA
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
BIOGRAFIA DE LÚCIA
«Aos trinta dias do mês de Março de mil novecentos e sete,
nesta paroquial Igreja de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém,
Patriarcado de Lisboa, baptizei solenemente um indivíduo do
sexo feminino, a quem dei o nome de Lúcia, nascida em Aljustrel,
desta freguesia, às sete horas da tarde de vinte e dois de Março
corrente...» Assim reza a acta do baptismo. Seus pais eram António dos Santos e Maria Rosa, residentes em Aljustrel, lugarejo pertencente à Paróquia de Fátima.
Sendo a última de sete irmãos, cinco raparigas e um rapaz,teve uma infância de mimos e privilégios, a que não faltaram desgostos e desgraças familiares, corajosamente suportados e superados por aquela mulher exemplar que era sua mãe. Aos seis anos, faz a sua primeira comunhão, cujo relato os nossos leitores hão-de saborear com admiração e carinho. Nessa idade porque assim o exigiam as necessidades da casa, começa a sua vida de pastora. Primeiro, no ano de 1915, os seus companheiros são todas as pequenas e pequenos de Aljustrel e arredores. A partir de 1917, acompanham-na, quase exclusivamente, seus primos Francisco e
Jacinta Marto. É o ano das Aparições da Virgem. Nelas, Lúcia ocupa um lugar especial, pois é a única que fala com Ela e d’Ela recebe uma mensagem especial para dar a conhecer no futuro. Vive e sofre com seus primos, por causa das Aparições; mas é também a
única que teria de ficar por mais tempo neste mundo, para cumprir
a sua missão.
A Virgem, na verdade, tinha-a mandado aprender a ler... Sem
dúvida, só depois das Aparições começa a ir à escola, onde rapidamente, com seu engenho e memória extraordinárias, aprende
as primeiras letras.
Passadas as Aparições, a situação de Lúcia era, naturalmente,
a de uma «vidente», com todos os riscos que isso comporta. Era
necessário fazer algo mais com ela. Atender à sua educação e
subtraí-la aos perigos que poderia sofrer naquele meio ambiente
de «milagreira» e de «maravilhosismo», foi uma das primeiras
preocupações do recém nomeado primeiro Bispo de Leiria, após a
restauração da Diocese. Na manhã de 17 de Junho de 1921 entrava,
como educanda, no Colégio das Irmãs Doroteias, em Vilar, hoje
integrado na cidade do Porto.
Recolhamos um retrato fisionómico da época, correspondente
a fotografias perfeitamente conhecidas: «cabeça alta e larga. Olhos
castanhos, grandes e vivos. Sobrancelhas pouco densas. Nariz
achatado, boca larga e lábios grossos. Queixo redondo. Rosto algo
mais que natural. Cabelos ruivos e finos. Baixa estatura, mas alta
para a sua idade (então tinha treze anos e meio). Feições bastas
mas rosto simpático. Ar de gravidade e de inocência. Viva,
inteligente, mas modesta e sem pretensões. Mãos grossas, de
trabalho e de tamanho regular.»
A jovenzita Lúcia entra no Colégio do Porto com catorze anos
e três meses. Ali recebe uma educação moral e religiosa excelente.
A educação cultural é mais deficiente, pois não vai além da
instrução primária. Pelo contrário, a preparação de lavores femininos é muito boa. Mas a pequena Lúcia, com o seu grande talento, grande memória, constância e seriedade de conduta, haveria de tirar, de tudo isso, uma formação que poderíamos classificar de suficientemente completa.
Lúcia, já antes de entrar no Colégio tinha tido uns vagos desejos
de consagrar-se a Deus na vida religiosa. Mas a intensa vida de
piedade que se cultivava no Colégio fê-la reflectir; e a sua primeira
ideia foi para as Carmelitas... Porém, o exemplo e o agradecimento
para com as suas formadoras decidiu-a a escolher o Instituto de
Santa Doroteia.
Nessa altura (1921-1925) as Doroteias portuguesas tinham o
Noviciado em Tuy. Para ali se dirigiu Lúcia, então jovem de 18 anos, no dia 24 de Outubro de 1925. Seguirá imediatamente para a Casa que as Doroteias tinham em Pontevedra, na Travessa de Isabel ll, a fim de fazer o Postulantado. Esteve aqui desde o dia 25 de Outubro de 1925 até 20 de Julho de 1926, data em que chega ao Noviciado de Tuy para completar o Postulantado.
Com a imposição do hábito, em 2 de Outubro de 1926, começa
o seu Noviciado. Ali passa os dois anos de Noviciado, para
professar no dia 3 de Outubro de 1928. Seis anos depois, é destinada à Casa de Pontevedra, para onde segue e permanece, até
que, de novo, em Maio de 1937, volta a Tuy. Aqui fica até Maio de
1946, em que recebe ordens para regressar a Portugal. Depois de
passar uns dias a visitar e a reconhecer os locais das Aparições,
na Cova da Iria e em Aljustrel, é destinada à Casa do Sardão, em
Vila Nova de Gaia, próximo do Porto. Entretanto, renovando antigos desejos de retiro e solidão, obtém do Papa Pio Xll a graça da transferência para as Carmelitas.
Em 25 de Março de 1948, entra para o Carmelo de Santa Teresa,
em Coimbra, para levar uma vida de oração e penitência até
à morte, ocorrida em 13 de Fevereiro de 2005.
BIOGRAFIA DE LÚCIA
«Aos trinta dias do mês de Março de mil novecentos e sete,
nesta paroquial Igreja de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém,
Patriarcado de Lisboa, baptizei solenemente um indivíduo do
sexo feminino, a quem dei o nome de Lúcia, nascida em Aljustrel,
desta freguesia, às sete horas da tarde de vinte e dois de Março
corrente...» Assim reza a acta do baptismo. Seus pais eram António dos Santos e Maria Rosa, residentes em Aljustrel, lugarejo pertencente à Paróquia de Fátima.
Sendo a última de sete irmãos, cinco raparigas e um rapaz,teve uma infância de mimos e privilégios, a que não faltaram desgostos e desgraças familiares, corajosamente suportados e superados por aquela mulher exemplar que era sua mãe. Aos seis anos, faz a sua primeira comunhão, cujo relato os nossos leitores hão-de saborear com admiração e carinho. Nessa idade porque assim o exigiam as necessidades da casa, começa a sua vida de pastora. Primeiro, no ano de 1915, os seus companheiros são todas as pequenas e pequenos de Aljustrel e arredores. A partir de 1917, acompanham-na, quase exclusivamente, seus primos Francisco e
Jacinta Marto. É o ano das Aparições da Virgem. Nelas, Lúcia ocupa um lugar especial, pois é a única que fala com Ela e d’Ela recebe uma mensagem especial para dar a conhecer no futuro. Vive e sofre com seus primos, por causa das Aparições; mas é também a
única que teria de ficar por mais tempo neste mundo, para cumprir
a sua missão.
A Virgem, na verdade, tinha-a mandado aprender a ler... Sem
dúvida, só depois das Aparições começa a ir à escola, onde rapidamente, com seu engenho e memória extraordinárias, aprende
as primeiras letras.
Passadas as Aparições, a situação de Lúcia era, naturalmente,
a de uma «vidente», com todos os riscos que isso comporta. Era
necessário fazer algo mais com ela. Atender à sua educação e
subtraí-la aos perigos que poderia sofrer naquele meio ambiente
de «milagreira» e de «maravilhosismo», foi uma das primeiras
preocupações do recém nomeado primeiro Bispo de Leiria, após a
restauração da Diocese. Na manhã de 17 de Junho de 1921 entrava,
como educanda, no Colégio das Irmãs Doroteias, em Vilar, hoje
integrado na cidade do Porto.
Recolhamos um retrato fisionómico da época, correspondente
a fotografias perfeitamente conhecidas: «cabeça alta e larga. Olhos
castanhos, grandes e vivos. Sobrancelhas pouco densas. Nariz
achatado, boca larga e lábios grossos. Queixo redondo. Rosto algo
mais que natural. Cabelos ruivos e finos. Baixa estatura, mas alta
para a sua idade (então tinha treze anos e meio). Feições bastas
mas rosto simpático. Ar de gravidade e de inocência. Viva,
inteligente, mas modesta e sem pretensões. Mãos grossas, de
trabalho e de tamanho regular.»
A jovenzita Lúcia entra no Colégio do Porto com catorze anos
e três meses. Ali recebe uma educação moral e religiosa excelente.
A educação cultural é mais deficiente, pois não vai além da
instrução primária. Pelo contrário, a preparação de lavores femininos é muito boa. Mas a pequena Lúcia, com o seu grande talento, grande memória, constância e seriedade de conduta, haveria de tirar, de tudo isso, uma formação que poderíamos classificar de suficientemente completa.
Lúcia, já antes de entrar no Colégio tinha tido uns vagos desejos
de consagrar-se a Deus na vida religiosa. Mas a intensa vida de
piedade que se cultivava no Colégio fê-la reflectir; e a sua primeira
ideia foi para as Carmelitas... Porém, o exemplo e o agradecimento
para com as suas formadoras decidiu-a a escolher o Instituto de
Santa Doroteia.
Nessa altura (1921-1925) as Doroteias portuguesas tinham o
Noviciado em Tuy. Para ali se dirigiu Lúcia, então jovem de 18 anos, no dia 24 de Outubro de 1925. Seguirá imediatamente para a Casa que as Doroteias tinham em Pontevedra, na Travessa de Isabel ll, a fim de fazer o Postulantado. Esteve aqui desde o dia 25 de Outubro de 1925 até 20 de Julho de 1926, data em que chega ao Noviciado de Tuy para completar o Postulantado.
Com a imposição do hábito, em 2 de Outubro de 1926, começa
o seu Noviciado. Ali passa os dois anos de Noviciado, para
professar no dia 3 de Outubro de 1928. Seis anos depois, é destinada à Casa de Pontevedra, para onde segue e permanece, até
que, de novo, em Maio de 1937, volta a Tuy. Aqui fica até Maio de
1946, em que recebe ordens para regressar a Portugal. Depois de
passar uns dias a visitar e a reconhecer os locais das Aparições,
na Cova da Iria e em Aljustrel, é destinada à Casa do Sardão, em
Vila Nova de Gaia, próximo do Porto. Entretanto, renovando antigos desejos de retiro e solidão, obtém do Papa Pio Xll a graça da transferência para as Carmelitas.
Em 25 de Março de 1948, entra para o Carmelo de Santa Teresa,
em Coimbra, para levar uma vida de oração e penitência até
à morte, ocorrida em 13 de Fevereiro de 2005.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - INTRODUÇÃO
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
INTRODUÇÃO ÀS MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
Antes de entrar na matéria propriamente dita de uma introdução
a toda a publicação de «Memórias», pareceu-nos oportuno
expor ao leitor, embora com muita brevidade, quais as nossas intenções, os limites que nos impusemos e o procedimento ou método seguidos.
A presente edição das Memórias da Irmã Lúcia é constituída
pelo texto português tal como se encontra nos originais manuscritos
conservados no Arquivo da Cúria Episcopal de Leiria, precedidos
de uma breve introdução.
Devemos à bondade paternal do actual Ex.mo Senhor Bispo de
Leiria-Fátima a generosa licença da publicação. Não se trata, claro
está, de uma edição crítica, no sentido técnico da palavra. A obra
crítica sobre os textos de Fátima está a ser feita pelo Serviço de
Estudos e Difusão do Santuário, em volumes sob o título «Documentação Crítica de Fátima».
A presente edição é, pois, uma edição popular e de vulgarização
de um texto precioso que irá comovendo o mundo. Ao chamar-lhe «popular», não o fazemos para nos libertarmos das exigências críticas, senão de algumas delas, como, por exemplo:
não julgamos necessária a indicação de todas as referências e
fontes que estão na base das nossas afirmações. Sem dúvida,
podemos assegurar ao leitor que nenhuma afirmação é feita aqui,
na introdução ou notas, que não possa ser provada.
Uma obra de carácter popular exige limites. Não é necessário
multiplicar as citações e notas, sobrecarregando-a excessivamente,
mas, ao contrário, que o leitor não encontre dificuldades na sua
leitura. Neste sentido, onde as palavras ou o pensamento da Autora
nos aconselham a fazê-lo, damos a necessária explicação. Daí,
também, o procedimento seguido.
Não nos parecia bem, numa edição deste género, que a obra
de Lúcia, extraordinariamente diáfana e simples, aparecesse sem
aquelas divisões normais que o próprio texto insinua. Por isso dividimos as Memórias em partes, capítulos e parágrafos, onde nos
pareceu conveniente e o pedia a sua estrutura lógica. Demos títulos
a essas divisões.
Assim, esperamos que o leitor, por um lado, descanse na sua
leitura, por vezes longa; e entre, por outro, devidamente preparado
no conteúdo do título oferecido. O texto original, portanto, longe de
perder a sua integridade, pode ganhar em clareza e ordem.
As notas e referências ao fundo da respectiva página, ajudam
o leitor a superar certas dificuldades; explicam certas circunstâncias
estranhas; e dão algumas informações, sem as quais, nalguns
casos, não é fácil entender bem o texto original.
Damos, em primeiro lugar, uma biografia, necessariamente
breve da Irmã Lúcia; seguidamente, um ensaio da fisionomia literária da Autora; e, por fim, uma introdução geral a todas as Memórias em conjunto.
No lugar próprio, faremos uma introdução especial a cada
Memória que compreende: a ocasião, o tempo, o ambiente, as intenções e o conteúdo geral.
INTRODUÇÃO ÀS MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
Antes de entrar na matéria propriamente dita de uma introdução
a toda a publicação de «Memórias», pareceu-nos oportuno
expor ao leitor, embora com muita brevidade, quais as nossas intenções, os limites que nos impusemos e o procedimento ou método seguidos.
A presente edição das Memórias da Irmã Lúcia é constituída
pelo texto português tal como se encontra nos originais manuscritos
conservados no Arquivo da Cúria Episcopal de Leiria, precedidos
de uma breve introdução.
Devemos à bondade paternal do actual Ex.mo Senhor Bispo de
Leiria-Fátima a generosa licença da publicação. Não se trata, claro
está, de uma edição crítica, no sentido técnico da palavra. A obra
crítica sobre os textos de Fátima está a ser feita pelo Serviço de
Estudos e Difusão do Santuário, em volumes sob o título «Documentação Crítica de Fátima».
A presente edição é, pois, uma edição popular e de vulgarização
de um texto precioso que irá comovendo o mundo. Ao chamar-lhe «popular», não o fazemos para nos libertarmos das exigências críticas, senão de algumas delas, como, por exemplo:
não julgamos necessária a indicação de todas as referências e
fontes que estão na base das nossas afirmações. Sem dúvida,
podemos assegurar ao leitor que nenhuma afirmação é feita aqui,
na introdução ou notas, que não possa ser provada.
Uma obra de carácter popular exige limites. Não é necessário
multiplicar as citações e notas, sobrecarregando-a excessivamente,
mas, ao contrário, que o leitor não encontre dificuldades na sua
leitura. Neste sentido, onde as palavras ou o pensamento da Autora
nos aconselham a fazê-lo, damos a necessária explicação. Daí,
também, o procedimento seguido.
Não nos parecia bem, numa edição deste género, que a obra
de Lúcia, extraordinariamente diáfana e simples, aparecesse sem
aquelas divisões normais que o próprio texto insinua. Por isso dividimos as Memórias em partes, capítulos e parágrafos, onde nos
pareceu conveniente e o pedia a sua estrutura lógica. Demos títulos
a essas divisões.
Assim, esperamos que o leitor, por um lado, descanse na sua
leitura, por vezes longa; e entre, por outro, devidamente preparado
no conteúdo do título oferecido. O texto original, portanto, longe de
perder a sua integridade, pode ganhar em clareza e ordem.
As notas e referências ao fundo da respectiva página, ajudam
o leitor a superar certas dificuldades; explicam certas circunstâncias
estranhas; e dão algumas informações, sem as quais, nalguns
casos, não é fácil entender bem o texto original.
Damos, em primeiro lugar, uma biografia, necessariamente
breve da Irmã Lúcia; seguidamente, um ensaio da fisionomia literária da Autora; e, por fim, uma introdução geral a todas as Memórias em conjunto.
No lugar próprio, faremos uma introdução especial a cada
Memória que compreende: a ocasião, o tempo, o ambiente, as intenções e o conteúdo geral.
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA - PREFÁCIO
MEMÓRIAS DA IRMÃ LÚCIA
Compilação do P.e Luís Kondor, SVD
Introdução e notas do P.e Dr. Joaquín M. Alonso, CMF (†1981)
Imprimatur,
Fatimae, Octobris de 2007
† Antonius, Episc. Leiriensis - Fatimensis
PREFÁCIO DO EDITOR
Às quatro primeiras Memórias da Irmã Lúcia, escritas por ordem do Bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, e aos Apêndices I e II relatos das aparições em Pontevedra e Tuy – em cumprimento
da promessa de 13 de Julho de 1917: « ...virei pedir a Consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão Reparadora nos primeiros sábados» juntou-se o texto do importante documento intitulado «A Mensagem de Fátima», com a terceira parte do «segredo», que João Paulo II confiara à Congregação para a Doutrina da Fé o encargo de o tornar público depois de elaborar
um comentário adequado.
Com a publicação da terceira parte do «segredo» recebido de Nossa Senhora pelos três Pastorinhos em 13 de Julho de 1917 (ver Apêndice III), ficou assim contida neste primeiro volume toda
a Mensagem de Fátima.
Estas quatro primeiras «Memórias», além das Aparições do Anjo e de Nossa Senhora, descrevem também como os Pastorinhos corresponderam heroicamente aos pedidos de Nossa Senhora, e nos apontam a todos, e de modo especial às crianças, um caminho certo para atingir a santidade.
As chamadas «Quinta Memória» (sobre o pai) e «Sexta Memória » (sobre a mãe) escritas pela Irmã Lúcia, no Carmelo de Coimbra, estão editadas, em separado, em «Memórias da IrmãLúcia II».
A beatificação de Francisco e Jacinta Marto (13-V-2000) iniciou uma nova era para a Igreja.
«‘Eu te bendigo, ó Pai, porque revelaste estas verdades aospequenos.’ O louvor de Jesus toma hoje a forma solene de beatificação dos Pastorinhos Francisco e Jacinta. A Igreja quer, com este rito, colocar sobre o candelabro estas duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas... Que a mensagem das suas vidas permaneça sempre viva para iluminar o caminho da humanidade». (Sermão de João Paulo II, em Fátima, na missa da Beatificação)
O conteúdo destas Memórias justifica bem o grande esforço
despendido na elaboração da nova edição.
Com a benévola licença do Bispo de Leiria-Fátima utilizámos
os manuscritos originais das quatro primeiras Memórias.
Aproveitámos os trabalhos do P.e Dr. Joaquín María Alonso,
Claretiano (†1981) e contámos com a ajuda do P.e Dr. Luciano Cristino, Director dos Serviços de Estudo e Difusão do Santuário de Fátima.
Aqui Ihes deixamos, em nome pessoal e de todos os leitores a
expressão do nosso reconhecimento pela sua preciosa ajuda.
Assim, nesta nova edição, é-lhe dada, caro leitor, a garantia
possível das palavras da Irmã Lúcia, embora corrigidas na ortografia e na apresentação dos diálogos, esperando que elas o atinjam no mais profundo de si mesmo e aí se fixem em laboriosa docilidade ao Espírito.
Agradecemos ao Senhor esta graça extraordinária de podermos
ter hoje nas mãos a obra completa sobre a Mensagem de Fátima,
que tanto ajudará a conhecer e a amar – sempre mais – a Santa Mãe
de Deus e nossa Mãe.
P.e Luís Kondor, SVD.
Vice-Postulador das Causas de Canonização
dos Beatos Francisco e Jacinta
Compilação do P.e Luís Kondor, SVD
Introdução e notas do P.e Dr. Joaquín M. Alonso, CMF (†1981)
Imprimatur,
Fatimae, Octobris de 2007
† Antonius, Episc. Leiriensis - Fatimensis
PREFÁCIO DO EDITOR
Às quatro primeiras Memórias da Irmã Lúcia, escritas por ordem do Bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, e aos Apêndices I e II relatos das aparições em Pontevedra e Tuy – em cumprimento
da promessa de 13 de Julho de 1917: « ...virei pedir a Consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão Reparadora nos primeiros sábados» juntou-se o texto do importante documento intitulado «A Mensagem de Fátima», com a terceira parte do «segredo», que João Paulo II confiara à Congregação para a Doutrina da Fé o encargo de o tornar público depois de elaborar
um comentário adequado.
Com a publicação da terceira parte do «segredo» recebido de Nossa Senhora pelos três Pastorinhos em 13 de Julho de 1917 (ver Apêndice III), ficou assim contida neste primeiro volume toda
a Mensagem de Fátima.
Estas quatro primeiras «Memórias», além das Aparições do Anjo e de Nossa Senhora, descrevem também como os Pastorinhos corresponderam heroicamente aos pedidos de Nossa Senhora, e nos apontam a todos, e de modo especial às crianças, um caminho certo para atingir a santidade.
As chamadas «Quinta Memória» (sobre o pai) e «Sexta Memória » (sobre a mãe) escritas pela Irmã Lúcia, no Carmelo de Coimbra, estão editadas, em separado, em «Memórias da IrmãLúcia II».
A beatificação de Francisco e Jacinta Marto (13-V-2000) iniciou uma nova era para a Igreja.
«‘Eu te bendigo, ó Pai, porque revelaste estas verdades aospequenos.’ O louvor de Jesus toma hoje a forma solene de beatificação dos Pastorinhos Francisco e Jacinta. A Igreja quer, com este rito, colocar sobre o candelabro estas duas candeias que Deus acendeu para iluminar a humanidade nas suas horas sombrias e inquietas... Que a mensagem das suas vidas permaneça sempre viva para iluminar o caminho da humanidade». (Sermão de João Paulo II, em Fátima, na missa da Beatificação)
O conteúdo destas Memórias justifica bem o grande esforço
despendido na elaboração da nova edição.
Com a benévola licença do Bispo de Leiria-Fátima utilizámos
os manuscritos originais das quatro primeiras Memórias.
Aproveitámos os trabalhos do P.e Dr. Joaquín María Alonso,
Claretiano (†1981) e contámos com a ajuda do P.e Dr. Luciano Cristino, Director dos Serviços de Estudo e Difusão do Santuário de Fátima.
Aqui Ihes deixamos, em nome pessoal e de todos os leitores a
expressão do nosso reconhecimento pela sua preciosa ajuda.
Assim, nesta nova edição, é-lhe dada, caro leitor, a garantia
possível das palavras da Irmã Lúcia, embora corrigidas na ortografia e na apresentação dos diálogos, esperando que elas o atinjam no mais profundo de si mesmo e aí se fixem em laboriosa docilidade ao Espírito.
Agradecemos ao Senhor esta graça extraordinária de podermos
ter hoje nas mãos a obra completa sobre a Mensagem de Fátima,
que tanto ajudará a conhecer e a amar – sempre mais – a Santa Mãe
de Deus e nossa Mãe.
P.e Luís Kondor, SVD.
Vice-Postulador das Causas de Canonização
dos Beatos Francisco e Jacinta
domingo, 4 de janeiro de 2015
Most Holy Name of Jesus day.
Martyrologium Romanum (anticipated)
Nonis Januarii Luna quinta decima Anno 2015 Domini
Vigilia Epiphaniae Domini.
Romae sancti Telesphori, Papae et Martyris; qui, sub Antonino Pio, post multos labores, pro Christi confessione, illustre martyrium duxit.
In Anglia natalis sancti Eduardi, Regis Anglorum et Confessoris; qui virtute castitatis et gratia miraculorum fuit insignis. Ejus autem festivitas, ex decreto Innocentii Papae Undecimi, tertio Idus Octobris, quo die sacrum ejus corpus translatum fuit, potissimum celebratur.
In Aegypto commemoratio plurimorum sanctorum Martyrum, qui in Thebaide, sub persecutione Diocletiani, diverso tormentorum genere caesi sunt.
Antiochiae sancti Simeonis Monachi, qui, multos annos in columna stans vixit, unde et Stylitae cognomen accepit; cujus vita et conversatio exstitit admirabilis.
Romae sanctae Aemilianae Virginis, amitae sancti Gregorii Papae; quae, vocante Tharsilla sorore, quae ad Deum praecesserat, hac ipsa die migravit ad Dominum.
Alexandriae sanctae Syncleticae Virginis, cujus res praeclare gestas sanctus Athanasius monumentis litterarum commendavit.
In Aegypto sanctae Apollinaris Virginis.
V. Et álibi aliórum plurimórum sanctórum Mártyrum et Confessórum, atque sanctárum Vírginum.
R. Deo grátias.
Martyrologium (anticipated)
The morrow is the Eve of the Epiphany of the Lord, the same day is the Octave of the holy martyr Thomas, Archbishop of Canterbury.
January 5th anno Domini 2015 The 15th Day of Moon were born into the better life
At Rome, the holy Pope Telesphorus, who toiled much for Christ, and under the Emperor Antoninus Pius obtained by his testimony a glorious martyrdom.
In Egypt are commemorated many holy martyrs who were slain in the Thebaid in divers ways, in the persecution under the Emperor Diocletian.
At Antioch, the holy monk Simeon, who lived for many years standing upon a pillar, whence he is called Stylitis (from the Greek style, which is being interpreted a pillar), whose life and conversation was wonderful (in the year 459).
In England, the holy King Edward, famous for his gift of chastity and of the power of working miracles. By command of Pope Innocent XI. his feast is kept upon the 13th day of October, which is the day of the translation of his sacred body (in the year 1066.)
At Alexandria (in the fourth century), holy Syncletica, whose noble acts holy Athanasius hath set before us in his writing.
At Rome, the holy virgin Emiliana, father's sister to holy Gregory the Great. Her sister Tharsilla, who had gone to God before her, came and called her, and upon the same day she passed hence to be for ever with the Lord (sixth century).
Upon the same day, the holy virgin Apollinaris (about the year 440).
V. And elsewhere many other holy martyrs, confessors, and holy virgins.
R. Thanks be to God.
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